quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Solidão
Foi visto de manhã no Twitter. "Indo pro trabalho". Pouco tempo depois, outro sinal de vida, desta vez acompanhado de uma imagem: "Olha a chuva!" dizia o entusiasmado post, acompanhado de uma foto tirada do lado de dentro de uma janela de táxi. Depois disso, silêncio.
Só foi avistado de novo no Facebook. "Quanta coisa pra fazer!!", dizia o status.
Lembrou-se de atualizar seu Foursquare. "I'm at work", dizia o post acompanhado de um link, que abria um mapa descrevendo exatamente onde "work" era. Checou quantas pessoas foram curiosas o suficiente para clicar, se decepcionou com o número. Fechou a aba em revolta.
Continuou seu dia no Formspring. Nenhuma pergunta nova. Outra decepção. Lançou um apelo através do Twitter: "PERGUNTEM!!!!" acompanhado de um link furioso. Obteve resultado. Uma pergunta tímida: "O seu chefe é legal com você?". Não muito criativa, mas valia. Respondeu simplesmente: "Nem um pouco!".
Olhou para a resposta. Ponderou. Resolveu espalhar o assunto: Abriu uma enquete no Orkut, criou um evento no Facebook. O assunto rodou seu mundo. Postou no Instagram uma foto de seu próprio chefe, irritado com algo. O post, de mãos dadas com o link, dizia: "Olha que insuportável!".
Esperou. Nenhuma manifestação. Alguns comentários isolados, aqui e ali. Resolveu procurar no Google por algo relacionado, achou algumas frases e fotos divertidas. Blogou-as no Tumblr, dando risadinhas.
Resolveu visitar o passado e foi olhar seus e-mails. Algumas atualizações no Hotmail, nada que outros sites já não tivessem dito antes. Mensagem de trabalho no Gmail; mais coisas pra fazer. Suspirou, e fugiu de lá. E-mail é coisa de velho.
Resolveu aliviar a tensão, foi dar uma olhada em sites de humor. Deu algumas risadas, compartilhou algumas piadas e logo cansou.
Viu pelo feed no seu browser o lançamento de um filme com seu ator preferido. Enlouqueceu. Espalhou a notícia aos quatro cantos, blogou, reblogou, twetou, retwetou...
Passada a euforia, postou no seu blog sobre o assunto. Escreveu um verdadeiro livro: Cinco parágrafos cheios!
Cansou novamente. Chega de literatura por hoje.
Sumiu. Apareceu de novo postando no Twitter for iPhone: "Quase em casa! Que dia chato!"
Lar doce lar. Atualizou o Foursquare, o status do Facebook: "Ninguém merece o computador lá do trabalho!"
De fato. No lar, liberdade. Adicionou algumas fotos, mexeu em outras com o Photoshop. Entrou no MSN, ninguém online. Saiu, entrou de novo, saiu de novo. "Ninguém fala comigo!", reclama no Twitter.
Entrou no FaceTime, nada. Acessou o recente Google+. Nada de novo. Rodou, rodou e rodou na internet. Entrou até na UOL, procurando alguma notícia interessante. Nada. Absolutamente nada.
Desligou o computador. Morreu silenciosamente.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Lovestory
O transporte público é um lugar curioso. Várias pessoas que não se conhecem se juntam, cada uma com um objetivo diferente e uma personalidade distinta e se toleram por alguns minutos (ou algumas horas) para alcançar seu objetivo final, que na maioria das vezes não tem nenhuma relação com ninguém ali. E embora você passe algum tempo espremido e agarrado em um desconhecido, você raramente se apega a ele no relativamente curto período de tempo em que dividem um espaço.
Se apega...?
*
Ele entrou no metrô por último, quase o perdeu. Seu chefe iria matá-lo se ele chegasse atrasado. Ele não podia perder mais um emprego, e esse na oficina não era tão ruim. Não tão ruim se comparado aos outros, pelo menos. Não era o melhor salário do mundo, mas mesmo assim pagava as contas. A maioria delas, pelo menos.
Ele não perdeu tempo procurando um lugar, e agarrou o corrimão no meio do corredor. Ele estava vestido com um capote pesado e simples, marrom, que escondia bem o macacão típico de mecânico. Ele se divertia imaginando o que as pessoas deveriam pensar quando o vissem...
Com um solavanco, o vagão se moveu, lentamente no início, e depois mais veloz, em direção ao túnel escuro. Entediado, ele olhou a sua volta e percebeu uma linda mulher sentada alguns passos à sua frente, vestida em um casaco de pele e agarrada a uma bolsa. A mulher tinha ar de rica, postura de rica, se vestia como rica. Ela contrastava com o ambiente do metrô, como um talher de prata brilhando entre outros de ferro barato. Ela quase reluzia, ofuscando todos ao seu redor. Ela usava pouca maquiagem, tinha o cabelo loiro caindo nos ombros e brincos discretos. Ao vê-la tão arrumada, ele próprio se sentiu terrível, com seu cabelo castanho sujo e desarrumado, seu capote imundo e suas mãos calejadas. Ele imaginou como seria a pele da mulher. Como seria tocá-la, tocar seus cabelos, sentir um corpo contra o outro... A mente dele divagou, imaginando como seria conhecê-la. Que ela era rica, isso era óbvio. Porque estaria no metrô? Talvez seu carro estivesse quebrado... Talvez aquele Mercedes na oficina fosse dela! Fazia todo o sentido... Ela até poderia estar indo pra lá nesse exato momento, pegar o carro. Nesse caso eles sairiam na mesma estação... Seria a chance perfeita para puxar uma conversa. Você por acaso não está indo na oficina a duas quadras daqui pegar o seu Mercedes, está? Mesmo? Eu trabalho lá! Sim, é um carro muito bonito... Claro, eu te acompanho até lá!
E assim ela sairia com ele para um jantar, um bar qualquer, depois restaurantes mais finos, ele a levaria para seu apartamento, e depois ela o levaria para sua suíte quatro quartos...
A parada brusca do trem o tirou de seus devaneios. Ele vasculhou a plataforma com os olhos procurando indicações da parada, e percebendo que era a sua, saltou para fora do vagão. Ele instintivamente olhou para e trás e seus olhos encontraram o da mulher por uma fração de segundo, mas que para ele durou minutos. O olhar dela era carinhoso e receptivo, que aqueceu o coração dele, logo a ser partido quando percebeu que ela não se levantaria, que não saltariam na mesma estação... E então o trem partiu com um solavanco, levando-a para longe... Para longe do olhar, para longe de qualquer tipo de envolvimento, para longe...
Quando chegou à oficina, ao ver o Mercedes sendo devolvido a um senhor de terno e gravata, ele comentou com seus colegas de trabalho que encontrara uma linda mulher no metrô, uma morena linda... Ou era loira? Ele não mais se lembrava... Os outros riram dele, e voltaram ao trabalho. Mas ele se lembrava de uma coisa, e isso ele não revelou à seus colegas.Ele se lembrava do olhar, o olhar quente, carinhoso, reconfortante e acolhedor... E aquilo, aquilo sim, ele jamais se esqueceria.
*
Ela chegou cedo à estação, e entrou primeiro no trem, conseguindo um lugar para sentar. Ela se agarrou à bolsa de couro sujo, que ela tinha por anos e nunca conseguia dinheiro suficiente para jogar fora e comprar uma nova. Ela vestia um casaco de pele emprestado da sua amiga, maquiagem simples e brincos baratos. Ela se odiou por um momento, por não ter dinheiro suficiente para conseguir pagar por roupas elegantes, maquiagem e brincos de verdade. Lógico, para os padrões mínimos ela estava bem vestida, mas isso não era suficiente. Não chegava nem perto. Seu cabelo nem ao menos era bonito, pensava ela, era um loiro meio escuro, como se estivesse borrado. Ela suspirou. Seu emprego na loja de roupas não pagava bem o suficiente para seus desejos. Esse emprego exigia que ela estivesse bem vestida e sempre simpática, o que ela se esforçava para ser, mas o casaco de pele emprestado realmente dava a qualquer um que estivesse olhando uma idéia errada de sua verdadeira situação financeira.
Ela se acomodou no banco engordurado o melhor que pôde e tentou esquecer o ambiente a sua volta. Porém, em certo ponto do trajeto, ela sentiu como se estivesse sendo observada. Uma intuição, um sexto sentido tilintou e ela discretamente levantou o olhar. Ela percebeu, então, um homem jovem olhando para ela. Mas, ao mesmo, não exatamente para ela. Era como se o olhar a atravessasse, como se ele estivesse fitando o vazio. Mas estava olhando para ela.
O homem estava vestido em um capote marrom elegante, certamente com um terno e gravata impecáveis por baixo. Ele tinha o cabelo castanho de uma tonalidade impressionante e olhos negros como uma noite sem lua, olhando sem ver. Certamente um empresário, com uma carreira em ascensão. Havia muitos escritórios perto de onde ela trabalhava. Se ele saltasse na mesma parada que ela, estava confirmado: Um jovem e bem-sucedido empresário. Ela até poderia puxar conversa, dizer onde ela trabalhava... Ele, como o ótimo cavalheiro que certamente era, a convidaria para jantar naquele restaurante da avenida logo abaixo da loja de roupas que requer reservas de dois meses... Sim, e lá ele revelaria seu amor profundo por ela, diria que moveria montanhas por ela, diria que a levaria até o infinito e voltaria... E também revelaria seus planos para se tornar promotor, depois se candidatar a deputado, depois senador, depois...
Ela mordeu o lábio, não conseguindo esconder um sorriso. O que diriam suas insípidas colegas de trabalho? Com certeza se morderiam por dentro. E ela desfilaria com seu novo homem, mostrando seu novo troféu...
Quando o trem parou era quase caiu para o lado. Ela ergueu o olhar buscando pelo seu príncipe encantado, e quase desmaiou quando viu que ele saltava para fora do vagão. Ela implorou com os olhos para que ele ficasse, para que vivesse sua vida com ela... E subitamente ele se virou, mas era como se ela já esperasse por isso e lançou um olhar de súplica...
Então o trem se moveu, e a escuridão substituiu a plataforma iluminada em um piscar de olhos.
domingo, 17 de julho de 2011
In the Light
Algumas cidades nunca dormem. Ao anoitecer, suas luzes artificiais se acendem, e lembram os pobres coitados que se espremem nela e fingem que tem uma vida de que eles jamais estão sozinhos. Não importa onde eles estão, não importa aonde eles vão ou o que pensem, eles vão estar na companhia das onipresentes luzes da cidade, trazendo conforto, segurança e também uma dose considerável de paranóia.
Mas luzes não protegem ninguém. Uma falsa sensação de segurança se instala no indivíduo iluminado e ele se sente no direito de caminhar pela sua cidade, com uma ilusão de posse. Depois, quando algo de ruim acontece embaixo das onipresentes luzes, o indivíduo se lamenta, joga a culpa na má administração do local e volta para casa, o orgulho ferido e uma lição aprendida. E as luzes? As luzes assistiram a tudo, mas nada fizeram para impedir o assalto, a agressão ou a morte.
Sejam luzes ou outros edifícios e utilidades públicas, tais objetos viram mais do que qualquer um deveria. A bem da verdade, esses objetos dariam ótimos escritores e contadores de histórias. Se deixe imaginar: Quantas histórias de amor um telefone público já não presenciou? Quantas histórias de suspense um beco escuro poderia contar? Um ônibus de transporte público já presenciou tantos assaltos que nem deve ter mais vontade de viver. Porém as luzes, com seu brilho tão artificial e tão superestimado, são as que mais sofrem.
Inúteis. Luzes inúteis, essas que oferecem uma sensação de proteção, mas sem proteção de fato. E, ainda assim, que falta fazem quando se apagam! Instala-se o pandemônio, cadê a luz, meu deus, cadê a luz? As pessoas se desesperam sem saber que, com ou sem luz, não faz nenhuma diferença. Porém o medo é palpável, e os maus intencionados, esses sim, se sentem seguros para agir.
Estatísticas provam (?) que sessenta por cento da população mundial nunca viu um céu estrelado. As luzes elétricas ofuscam as verdadeiras luzes, as estrelas. Luzes que estiveram sempre com o ser humano, vários minúsculos pontos iluminados ao redor da enorme lâmpada meio-iluminada que é a Lua. Com o passar dos séculos, a humanidade passou a contar com meios próprios de se sentirem seguros durante a noite. Criaram suas próprias estrelas, que se acendiam e se apagavam a seu bel-prazer... E lhes davam a sensação de poder.
Mas, ainda hoje, experimente... Desligue as luzes, só por um instante, vá para a sua varanda, olhe da sua janela... E aprecie o céu e a Lua.
Por que, quando todas as luzes se apagam... Outras se acendem.
"In the Light... You will find a road..."
In the Light
Led Zeppelin
Physical Graffiti
Swan Song Records (Atlantic Records)
quinta-feira, 16 de junho de 2011
O Diário
I
-Aqui estamos senhor.
O jovem desceu do carro importado lentamente. O motorista, vestido em um terno italiano caríssimo, abriu a porta para ele. O jovem, impressionado com a mordomia, agradeceu, mas o motorista se contentou em fazer uma reverência apressada, então descarregou as malas e foi-se, como se nem estivesse ali em primeiro lugar.
O jovem então levantou a vista para contemplar a mansão. A fachada era imponente, com certeza. Uma escada ladeada por duas águias esculpidas em granito levava à magnífica porta de madeira direto de Paris. Havia duas janelas do lado da porta e mais duas no segundo andar, o que dava a impressão de que a casa vigiava quem estivesse se aproximando com quatro olhos sempre atentos. Ela se estendia bem mais para o oeste, sendo que a ala leste desembocava em uma estufa. A casa tinha um telhado que se projetava para o alto, no intuito de preservar o calor e afastar o frio das noites de inverno alemãs. No topo da casa havia diversas gárgulas, que de acordo com o costume europeu afastam maus espíritos. Porém uma das esculturas se sobressaía: Esculpidas em alguma rocha que o jovem não podia identificar, estavam duas águias lutando. A águia que estava por cima era esculpida em algum tipo de rocha branquíssima, sem nenhum salpicado de marrom e preto característico do marfim. Era inteira branca. A águia que se defendia, por sua vez, fora esculpida de uma rocha essencialmente negra. As duas águias contrastavam tanto que faziam desaparecer as outras gárgulas. A escultura era tão perfeita que parecia prestes a voar e, mesmo de tão longe, ela ainda transmitia a ferocidade das águias.
O jovem foi arrancado de seu devaneio por uma voz vinda da casa. Um senhor de idade vinha descendo as escadas com um sorriso controlado. Ele vestia uma roupa típica servil, e o jovem concluiu que se tratava do mordomo da casa.
-Bem vindo, senhor Folkester, bem vindo. – disse o mordomo em um português fluente, porém carregado de sotaque alemão. – Deixe-me levar às malas para o senhor...
-Não precisa. Eu mesmo levo. – disse o jovem Johann Folkester, em um alemão impecável. O mordomo se deteve por um segundo, talvez impressionado que seu novo patrão de classe média brasileira falasse alemão. – A viagem foi longa, e eu pretendo tomar um banho antes de qualquer coisa. Depois, o senhor se importaria de me mostrar a casa, senhor...?
-Hoffman, senhor Folkester. Hermann Hoffman, vindo de uma longa linhagem de Hoffmans servindo Folkesters, senhor. E, apesar de tudo, o senhor é um legítimo Folkester, e eu me esforçarei para servi-lo tal qual servi seu tio-avô, e meu pai serviu o pai dele, e o pai deste antes disso...
Johann subitamente parou. Ele se virou para o mordomo.
-Meu tio... Por que ele fez isso?
-Perdão, senhor?
-Eu compreendo que ele não tinha herdeiros... Mas havia tantos outros! Meus irmãos, meus primos... Todos... Como você disse? "Legítimos Folkesters", embora brasileiros. Porque me escolher para deixar tanto dinheiro, e uma propriedade tão impressionante?
O mordomo desviou o olhar.
-Vamos entrar senhor. Logo anoitecerá, e o frio não espera que as pessoas entrem nas suas casas. O senhor fez uma longa de viagem, e qualquer outro assunto pode esperar até que o senhor tenha jantado e descansado. Vamos, eu lhe mostrarei os seus aposentos.
O jovem obedeceu, e entrou na mansão. O interior da casa era tão impressionante quanto o exterior. Os móveis eram muito antigos, mas muito bem preservados. As paredes eram revestidas de madeira lustrada e o chão era forrado com tapetes enormes. Havia quadros pendurados nas paredes e tapeçarias que pareciam tão antigas quanto a queda de Roma. Uma escada de madeira bem trabalhada ao fundo da sala levava ao segundo andar, e este não era menos impressionante que o primeiro. Corredores longos, iluminados a gás, serpenteavam por todo o segundo andar, levando a inúmeros quartos e banheiros, uma biblioteca, uma sala de estudos e um escritório com uma máquina de escrever e uma coleção de vinhos. O mordomo mencionou também uma cozinha no primeiro andar e uma adega no porão, mas Johann disse que depois a visitaria. Ele tomou um banho e desceu para a sala de jantar, onde um verdadeiro banquete o esperava. A sala de jantar era ampla, com uma mesa de madeira ricamente trabalhada e com uma parede inteiramente de vidro, dando para a imensa propriedade Folkester. Uma chuva forte martelava o telhado da mansão, e relâmpagos iluminavam o céu noturno. Após comer, Johann voltou a interrogar o mordomo.
-Sente-se, Hermann, e me explique com calma porque um tio-avô alemão que eu jamais conheci me escolheu para herdar todo o seu dinheiro e essa propriedade.
O mordomo acomodou-se, e começou a falar.
-Seu tio, Erik Folkester, foi... Um homem excêntrico. Ele sempre viveu sozinho na mansão, e quando seu avô foi para a América do Sul fugindo da guerra, ele permaneceu. Esta propriedade foi tomada pelo partido nazista de 1939 a 1941, e usada como base de operações na região, principalmente devido à sua proximidade com a polônia. Meu pai e eu vivemos essa época com seu tio, porém eu era muito jovem para me lembrar com clareza. Eu sei, pelas histórias que meu pai me contava, que seu tio desaprovava a guerra desde o início, e era sempre frio e rude com os oficiais que passaram a morar nesta casa. Quando as... Atrocidades nazistas foram expostas ao público, seu tio-avô temeu por sua própria segurança, devido ao seu curto envolvimento com os nazistas. Porém ele não foi convocado ao tribunal de Nuremberg, e viveu o resto de seus dias aqui, escrevendo em seu diário. Quando o câncer veio, ele se desesperou. Disse que era cedo, que não havia mais tempo. Ele viva repetindo que sua paz dependia de você e do diário.
-Diário? Que diário?
O mordomo fez uma pausa.
-Sim, senhor Folkester, há mais um objeto que seu tio-avô deixou para você. Esse diário, segundo o próprio Erik, era o bem mais valioso que ele deixava para você. Ele jamais me explicou porque escolher você, especificamente. Ele apenas dizia que "era o certo a se fazer". Ele me instruiu a esconder o diário dos advogados para que ele não fosse acrescentado à herança, pois a existência do diário deve ser mantida em segredo. Eu não sei por que, e nem me atrevi a ler esse diário. Assim sendo, cumprindo a última vontade de meu patrão anterior, eu lhe entrego o diário.
O mordomo tirou do casaco um livro muito velho e desgastado, com uma capa de um verde simples, agora desbotado. O livro estava amarrado com um barbante puído e selado com o selo dos Folkester.
Johann lentamente apanhou o diário, sentindo a fragilidade do documento. Parecia que toda uma geração o observava atentamente. Ele retirou o selo com uma faca, arrancou o barbante e abriu o diário.
Hermann observou atentamente seu novo patrão devorar com os olhos as páginas amareladas. Johann dispensou o mordomo sem dizer mais nenhuma palavra, olhos fixos no diário. Obediente, Hermann se despediu e, cheio de perguntas, se recolheu para seu quarto. Eles só se viram na manhã, quando o mordomo encontrou o patrão ainda lendo o diário, com um interesse ainda maior do que antes. Após perguntar se ele precisava de alguma coisa, o mordomo se manteve imóvel ao lado de Johann por mais algum tempo, quando por fim o patrão fechou o livro e o pôs de lado. Um brilho em seus olhos estampava o mais puro fascínio em seu rosto. O mordomo imediatamente perguntou:
-Senhor, se me permite perguntar... Qual o conteúdo do diário?
A pergunta tirou Johann de seu devaneio. Ele levantou o olhar e, cheio de empolgação, respondeu:
-É muito interessante, Hermann... Muito interessante de fato. O diário é um detalhado relato dos anos em que a mansão foi transformada em um posto de operações nazista. Apesar das diversas colocações políticas de meu tio, parece que até 1942 a mansão não foi muito diferente de muitos outros postos de operações por toda a Alemanha.
-Porém, à medida que a guerra avançou e o Eixo foi perdendo territórios, a mansão foi ganhando mais importância, chegando a receber a visita do chefe da polícia secreta nazista Heinrich Himmler. Toda essa atenção se deu ao fato de que a mansão foi escolhida pelo alto escalão nazista para ser o local onde seria guardada uma caixa de valor inestimável... Meu tio-avô não revela qual o conteúdo dessa caixa. Ao que parece, ele não sabia ao certo. Mas ele menciona que ela era guardada constantemente por metade do regimento na estufa da mansão, e que pelo menos duas vezes por semana alguém do alto escalão ia visitá-la. Ele também menciona uma conversa entre dois oficiais dizendo que a guerra dependia da caixa... De qualquer forma, era algo de extrema importância. Porém o diário é muito vago... Meu tio interrompe a narrativa diversas vezes para dar um discurso anti-militar e se perde em seu próprio relato. Mas mesmo assim está mais do que claro que algo aconteceu nesta casa... Algo que os Aliados nunca chegaram a descobrir... – Johann fez uma pausa. Ele então balançou a cabeça. – Ridículo. Não é possível, como algo assim permaneceria sem ser descoberto? Provavelmente não é nada. Se fosse algo assim tão importante, porque não guardá-lo em Berlim? Não faz sentido... Não.
O brilho desapareceu dos olhos do patrão, à medida que percebia a falta de sentido na narrativa de seu tio-avô. Ele então desabou na poltrona e dispensou o mordomo.
-Senhor, se permite dizer... Acredito que o senhor esteja errado.
-É lógico que eu estou errado. A história é totalmente sem nexo, como pude acreditar...
-Não, senhor, não foi isso que eu quis dizer... Eu acredito que seu tio-avô tinha razão ao dizer que a caixa era algo impressionante.
-Ah, é? E por quê?
-Bom, não posso confirmar nada sobre a própria caixa, mas houve um fenômeno nessa mansão que nunca foi explicado. A estufa não produz nada desde que eu era menino. Meu pai me contava de quando ela era cheia de vida, mas por algum motivo nem meu pai nem eu nunca conseguimos fazer com que nada crescesse lá. O senhor não teve tempo de ver, senhor, mas aquela estufa é totalmente morta. Eu desisti de plantar qualquer coisa lá há tempos.
Johann pulou da poltrona.
-Na estufa! Mas era lá que a caixa era mantida... Leve-me até lá, Hermann! Agora mesmo, pegue as chaves, rápido, rápido!
O mordomo, com um pequeno sorriso no canto do rosto, apanhou as chaves e seguiu para fora da mansão, em direção à estufa, seguido de perto por Johann. Ela ficava a quinhentos metros da mansão, e o mordomo não mentira quando disse que era um lugar morto. Prateleiras enchiam a enorme estrutura de vidro, vazias em sua maioria. Aqui e ali havia vasos de plantas mortas há muito tempo. O solo era duro e descoberto, contrastando com a grama alta do resto da propriedade.
Johann se aproximou lentamente, examinando o solo com cuidado. Subitamente, ele se levantou, e disparou para o mordomo:
-Hermann, qual foi a causa da morte de seu pai?
O mordomo olhou para seu patrão fixamente, como se não tivesse entendido a pergunta.
-Perdão?
-Ah, você me ouviu. Qual foi?
-Eu... Eu... – O mordomo se impressionou com a firmeza de seu patrão, e por fim respondeu – Ele morreu de câncer, senhor. Um tumor. Porque o interesse, se me permite perguntar?
Johann ficou parado no meio da estufa morta por vários minutos. Quando o mordomo repetiu a pergunta, ele olhou de volta, com um olhar vazio. Depois respondeu:
-Não seja idiota, Hermann! Seu pai morreu de câncer! Meu tio-avô morreu de câncer! Uma caixa nazista misteriosa guardada em uma estufa morta! Junte os pedaços!
O mordomo empalideceu.
-O senhor acha que a caixa era... Uma arma biológica?
-Eu tenho certeza, meu amigo! – ele então voltou quase correndo para a mansão, pegou um casaco e as chaves de um dos muitos carros na garagem da mansão, e quando o mordomo perguntou aonde ia, ele respondeu – Eu vou à cidade, Hermann. E você devia fazer um exame... Deus sabe se você também não foi contaminado! Até logo!
E com isso deixou o mordomo cheio de medo, interrogação e surpresa plantado na porta da mansão enquanto ia à cidade... Conseguir respostas.
Fim da primeira parte.
sábado, 28 de maio de 2011
Berço de Ouro
Sam tocou os as últimas notas da música, e o som do piano era suave e doce aos seus ouvidos. As teclas pareciam feitas de seda, e o banco no qual sentava enquanto fazia a mágica acontecer, feito do mais fino veludo. Mas ele podia ouvir algo mais. Talvez o som da própria alma do piano, cantando para ele, qual faria uma ninfa, ou uma sereia. E mesmo quando ele se levantava no fim de cada número e agradecia ao público em júbilo, ele acreditava poder ouvir o piano aplaudindo também.
Pouco importava. A vida de Sam nunca fora melhor. Ele conseguira esse número estável em um bar de qualidade devido às conexões de seu pai, um poderoso empresário do mundo do entretenimento. As más-línguas diziam que era impossível que uma dúzia de bares, restaurantes e casas noturnas gerassem uma renda tão impressionante, e sussurravam que o grosso do dinheiro vinha das ligações com a máfia, mas isso também pouco importava. Sam sempre lotava a casa, e era sempre aplaudido ao máximo.
Antes não era tão fácil. Lógico, ele tinha dinheiro. Era só pedir, e seu pai arranjaria. O piano de cauda branco fora um presente dele. Mas Sam não brilhava. Era só mais um pianista desconhecido. Agora... Agora ele tinha um empresário, duas apresentações por semana, e agora já se falava em contrato com uma gravadora! Perfeito.
Sam saiu acenando para seu público que aplaudia. Ele desceu para o camarim embaixo do palco, para descansar um pouco antes de sair para beber algo e receber milhões de congratulações de ricos entusiasmados (e entediados) que viam nessas noites de música a única válvula de escape de seu mundo perfeito. Sam era alto e um tanto quanto fora de forma; Alguns de seus ternos já não o serviam tão bem. Contrastando com sua face oval e suas pernas gorduchas, seus dedos eram longos e firmes. Culpa do piano, dizia seu pai. Ele tinha um cabelo puxado para trás, evidenciando ainda mais sua testa enorme e as sobrancelhas finas, que dava a sua face um ar de juventude, apesar dos seus trinta anos. Não era um homem bonito, mas também não era feio.
Ele ainda sorria quando entrou no camarim, e para sua surpresa, encontrou seu empresário, em pé no meio da sala desarrumada, imponente na sua jaqueta de couro, mas também terrivelmente sério.
Richard, o empresário de Sam, já era experiente. Conseguira dezenas de contratos com bandas e artistas em ascensão nos seus anos de ouro, e agora era exclusivamente empresário de Sam. Ele era um homem sério por natureza, lacônico e reservado, mas um ótimo amigo. Tinha por volta de cinqüenta ou sessenta anos; Era ainda mais alto que Sam, mas era magro e tinha um rosto reto e amedrontador, com lábios finos e quase sempre crispados. Esses lábios raramente sorriam; Toda a face de Richard transmitia melancolia. Seus olhos azuis estavam sempre cansados; Faltava-lhes a severidade dos lábios. Suas mãos eram esqueléticas e contraídas, e seu cabelo quase todo se fora. Não, não era um homem particularmente alegre. Mas hoje ele estava especialmente sério. Toda sua fisionomia transmitia gravidade, e era impossível não notar, mesmo com todos os entorpecentes aplausos que Sam ainda desfrutava.
O sorriso se esvaiu da face de Sam.
-Ah, Richard... Foi uma ótima noite, esta... Está tudo bem?
Richard levantou seus olhos cansados e apenas disse:
-Espero que a tenha aproveitado... Porque acabou.
-Acabou? Como assim acabou?
-Seu pai está afundando na merda, Sam, e ele está levando tudo o que ele pode junto com ele. Já faz um mês que ele não tem mais lucro de lugar nenhum, só prejuízos. Ele está quebrado, falido. E isso faz de você um homem desempregado. Ah, e se despeça de seu piano. Ele foi vendido por metade do valor em uma tentativa desesperada de manter esse lugar funcionando.
Foi como um soco. Sam quase caiu para trás.
-Falido?? Mas... Mas eu estava...
-Não importa. – Richard desviou o olhar, e fitou o vazio. – acabou.
Sam parou de pensar. Ele foi tomado por um ódio profundo, e antes que pudesse evitar, ele agarrou uma garrafa de champanhe, presente pela apresentação, e a quebrou na cabeça do empresário.
O homem caiu como uma rocha no chão. O champanhe caro se esparramou pelo carpete, se misturando com o sangue que escorria lentamente da cabeça do empresário inconsciente.
Sam entrou em pânico. Ele correu para fora do camarim, gritou por ajuda e voltou, pensando em uma história que se encaixasse. Quando entrou no camarim, ele viu que Richard se revirara no chão, e agora olhava fixamente para Sam. Seus olhos cansados estavam arregalados, e seus lábios crispados sussurravam...
"Assassino..."
Então sua cabeça pendeu para trás, ele perdeu os sentidos novamente.
Um garçom apareceu um segundo depois, e alguns minutos depois uma ambulância e a polícia, mas Sam respondeu as perguntas automaticamente. Disse que quando chegou o empresário já estava no chão; Fez um ótimo papel de perplexidade, porém sua perplexidade vinha do sussurro perturbador... Ele tinha certeza que o empresário sabia que ele tentara matá-lo. E se ele sobrevivesse, Sam não estaria somente falido; Estaria também preso.
Ele voltou para sua casa, ainda mecanicamente. Acordou no dia seguinte e foi direto para o hospital, visitar o empresário. Seu quarto estava sendo guardado por um policial, que confirmou que Richard tinha sobrevivido, mas não tinha recobrado a consciência.
Seria fácil, Richard pensou. Um travesseiro. Sim, um travesseiro, e alguns minutos a sós com Richard, e ele deixaria de ser um problema. Simples.
Ele convenceu o policial a deixá-lo a sós com o empresário facilmente. O oficial nem contestou. Fácil.
O quarto era pequeno, com duas camas separadas por uma grossa cortina verde-água. Richard estava na primeira cama, com os aparelhos piscando e apitando ao seu lado. Sam se aproximou lentamente. O empresário respirava pesadamente, com os olhos fechados e relaxados. Só assim para que Richard relaxasse, pensou Sam. Ele pegou um dos travesseiros. Ele o segurou logo acima da cabeça cheia de bandagens de Richard...
Então, subitamente, o empresário abriu os olhos.
-Te peguei.
Sam pulou para trás, derrubando os aparelhos, enquanto o empresário dizia:
-Eu acordei ontem no meio da noite, Sam. –seus olhos brilhavam com uma malícia e crueldade profunda. – Eu sabia que você viria tentar terminar o serviço. Por isso o policial lá fora mentiu, para que nós o pegássemos em flagrante.
Sam sussurrou:
-Nós...?
De repente, e cortina verde-água se abriu, e três policias armados pularam para cima de Sam e o algemaram, enquanto o empresário ria. Ele gargalhava, de um jeito que Sam nunca o vira fazer. Sam foi arrastado para fora do quarto, enquanto as risadas macabras enchiam seus ouvidos.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Decoração
A avenida movimentada e barulhenta se encaixava bem no perfil da cidade grande. Carros passavam incessantemente, e o som do trânsito era onipresente. A cidade respirava poluição, e em seu turbilhão de vidas podiam-se encontrar sofrimentos, decepções, alegrias e realizações humanas que nela habitavam. Sim, a cidade era uma coisa, estava viva, e a grande avenida era sua artéria principal. Ou assim o parecia para Mary.
Mary nunca tivera uma vida interessante. Cresceu e foi educada em uma cidade pequena, onde qualquer deslize, qualquer paixonite e qualquer segredo era assunto público. Especialmente para ela, filha do médico. Ela via todas as suas amigas, com vidas tão mais interessantes, indo a festas, e ela em casa estudando, aprendendo piano, recitando a missa. Por quê? Por que ela era a filha do médico, claro.
E o que se esperar da filha do médico que não um marido médico? Mary foi apresentada a Harry por seu próprio pai, provavelmente já maquinando o casamento dos dois. Foi uma cerimônia tradicional, com uma lua-de-mel tradicional. Apesar da infertilidade de Harry, ela sempre se esforçou em ser uma esposa compreensiva e, acima de tudo, respeitosa. Mas eles se amavam, ou assim Mary imaginava. Ela era feliz, o tanto quanto uma mulher pode ser quando tudo que ela é na vida é ser esposa do médico.
Por isso foi um choque quando Harry lhe disse que iriam mudar. Sair do interior, ir pra cidade grande. Oportunidade de trabalho, dissera Harry. Ela nunca estivera fora do estado antes, e agora isso! Mas Mary se acostumou com a cidade grande facilmente, chegando a apreciar sua sinfonia caótica e imprevisível. Ela acabou por tornar a cidade grande uma cidade pequena. Tinha uma rotina tão restrita que acabou criando sua própria cidade, que consistia do supermercado, uma ocasional ida às compras, aulas de piano nas quartas, francês nas sextas. E sempre a tempo de voltar pra casa e deixar o jantar pronto. Então ela conversaria com Harry sobre seu dia, e ele contaria uma história sobre um paciente problemático ou uma cirurgia complicada. Então ela iria para cama cedo, e recomeçaria tudo de novo. Uma rotina comum, porém inflexível, e Mary não conhecia mais nada além dela. Ela gostava da idéia de que, quando estivesse longe do marido, ele sempre saberia onde ela estava. Sempre. Quebrar a rotina era algo impensável, um delito inadmissível. Não que Harry notasse quando ela o fazia, mas ela se sentia horrível, como se mentisse para o marido que nem sequer sabia da importância de tal rotina.
Portanto, qual sua surpresa quando, na plataforma do metrô, viu Harry a alguns metros dela!
No início, ela se encheu de felicidade. Ela gritou e acenou para ele, mas quando ele se virou, ela silenciou imediatamente, e permaneceu quieta, mãos nas sacolas, invisível. E o fez porque viu algo na face do marido que jamais vira antes. Era medo, mas um medo de momento, como se ele estivesse regado de adrenalina. Ao ouvir seu nome, Harry se virou imediatamente, como um cão faz quando ouve alguém rondando a casa. Harry sondou a multidão, exatamente como um cão faria, diversas vezes, irritadiço e assustado. E isso aterrorizou Mary.
Primeiro, porque ela nunca, jamais via Harry naquela estação. E como sua rotina era inflexível, Mary teve certeza de que algo de errado. Algo terrivelmente errado. E a reação frenética de Harry apenas confirmou esse temor. E quando viu seu marido entrar em um vagão diferente do dela, a mulher nem pensou. Seguiu-o instantaneamente, sem pensar. Seus olhos corriam aflitos pelo vagão, e quando encontraram o marido, também aflito, aquietaram-se. Ela o seguiu por mais algumas estações, e finalmente ele saltou. Mary seguiu-o, escondida pela multidão. Ela o viu entrar em um bar barato e desconhecido, e resistiu ao impulso de entrar atrás dele e perguntar o que havia de errado. Ao invés disso, ela teve outra idéia. Acenou para um garçom, e pediu uma mesa do lado de fora, logo em frente para a vitrine enorme do bar. De lá ela podia ver claramente seu marido, que olhava freneticamente para o relógio, e depois para o cardápio, e depois para o relógio de novo. Então, por fim, suas feições mudaram. Um alívio súbito substituiu toda a aflição, e Harry relaxou instantaneamente. Mary percebeu a razão, e ela congelou. Ficou parada, como uma estátua, escondida atrás do cardápio barato do bar. Pois o que deixara Harry tão aliviado fora a chegada de uma mulher!
Mary estremeceu. Ela não conhecia a mulher, mas sabia que era bonita; Estava vestida em um terno e usava óculos modernos, que realçavam a suavidade de sua face. Ela era alta, e sabia andar de salto. Ela sentou-se à mesa de Harry, e eles conversaram por meia hora, e Mary podia jurar que nunca tinha visto seu marido tão feliz. Uma amante! Mary sentiu suas entranhas se revoltarem, e achou que ia vomitar. Sua lealdade e seu carinho pelo marido subitamente se tornaram ódio. Ódio mortal, e a facilidade com que isso aconteceu assustou a própria Mary. Mas a Mary do interior sumira, e em seu lugar havia ódio puro. Ela ficou remoendo seu ódio até que o profano casal saísse do bar, e então aquela Mary cheia de ódio levantou-se e seguiu-os, com a cautela de um soldado atravessando um campo de batalha. Ela os seguiu o dia inteiro, e esse dia fora uma tortura. Eles passearam pelo centro o dia inteiro, entrando e saindo de lojas caríssimas. Os pensamentos de Mary então se tornaram violentos. Ela fantasiou segui-los até um motel, onde ela entraria no quarto e o redecoraria com o sangue dos dois...
Ela então pensou, ponderou a idéia. Era a única coisa razoável a se fazer. Nada mais.
Ela então voltou para o apartamento, e vasculhou as coisas de Harry até que encontrou sua arma. Um revólver pequeno e leve, discreto, mas letal. Ela então sentou na cama e esperou. Não se moveu o resto da tarde. Ela mantinha o frio objeto de metal na mão o tempo todo. Horas passaram, e por fim, seu marido chegou. Ela levantou-se lentamente enquanto ouvia a ladainha de Harry sobre um dia difícil na clínica, e seu ódio só aumentava ao ouvir as mentiras. Então, sem pensar, fitando o vazio, ela saiu do quarto e apontou a arma para seu marido. Ele não percebeu no primeiro momento; Estava muito ocupado procurando nos bolsos do casaco algo, até que tirou de um deles um pequeno envelope. Então ele viu a arma, e antes que dissesse uma palavra, Mary atirou. Três vezes, e acertou todas as três.
Assim, sem rodeios. Quando viu que Harry percebia o objeto de metal apontado para ele, ela atirou. E, ainda sem emoção alguma tirou da mão dele o envelope, enquanto a vida se esvaía do homem. Ela o abriu e leu. Quando terminou ela deixou a arma cair, sem sentir o peso dela na sua mão. E riu. Sentou-se calmamente, releu o envelope várias vezes e riu mais ainda, enquanto observava seu marido se arrastar pelo chão, tentando alcançar algo que não estava a seu alcance.
O envelope dizia:
"Querida Mary;
Ainda nesta semana um caminhão virá entregar móveis novos e decorar toda a casa. Eu passei uma tarde inteira com a decoradora escolhendo os móveis, e, acredite, tive que passar pela mesma estação que você sempre pega de manhã! Espero que tenha conseguido manter segredo. É meu presente de aniversário para você, meu amor.
Feliz Aniversário
Harry"
Ela riu até que o homem ensangüentado aos seus pés parasse de se mover, e então o riso se transformou em um choro.
domingo, 24 de abril de 2011
Angel Dance
No Zeppelin, era a mesma coisa. Plant era o rosto da banda. Quando se dizia Led Zeppelin, se pensava no cantor loiro com cabelo encaracolado rebolando no palco, de peito aberto e excitado consigo mesmo (várias fotos de shows mostram Plant com uma infame ereção durante suas performances mais marcantes). Mas não era suficiente, pois embora os fãs não soubessem, a mídia e todos próximos da banda sabiam: O Zeppelin era de Page, e de ninguém mais.
Plant se sentia inferior. Um frase que entrou para os anais do Rock foi quando Plant gritou no em um hotel de Los Angeles "Eu sou um deus dourado!" (rumores dizem que ele repetiu isso no show, mais tarde, mas nada foi provado). Apesar de não saber, Page era um amigo e um rival. Quando perguntado por um jornalista sobre a obra-prima do Led Zeppelin Stairway to Heaven, Plant interrompeu o jornalista e disse: "Não, Stairway não. Kashmir é." Detalhe: Stairway to Heaven foi composta por Page, e Kashmir, por Plant.
Hoje, mais velho, menos andrógino e vestindo uma camisa, mal poderia se dizer que aquele cantor de country não era texano, muito menos que fundou o Hard Rock e fez parte de uma das bandas mais influentes dos últimos cinqüenta anos. Hoje, em contraste com um Page que mal sai de casa, Robert Plant é um nome importante na música country, faz shows pelos Estados Unidos, vende discos e compõe baladas dignas de Hank Williams. Hoje, Robert Plant reluta em falar do Zeppelin. Seria fácil especular por quê, mas julgar rápido é fácil e criticar é mais fácil ainda. O que interessa, e o que o faz realmente superior à Page hoje, é que Plant seguiu em frente. Lançou novos álbuns. Do mesmo jeito que Clapton fez com o Blues, Plant se lançou profundamente no country (Perdoem-me, Claptonmaníacos, se comparo o Deus da Guitarra com Robert Plant) e seguiu em frente. Page jamais superou a perda do Zeppelin, e seu trabalho posterior foi apenas sobre o Led e nada mais.
Mas estamos falando de Plant. Ele lançou vários álbuns, principalmente country, e de muita qualidade, porém aos quais nem eu dei muita atenção, parte por causa do meu preconceito com country e parte... Bom, era Robert Plant tentando ser caipira. Que ridículo. Porém mais uma vez meu preconceito se mostra errado, pois o último trabalho de Plant, o álbum "Band of Joy", é capaz de mudar todo o conceito de country. Com uma arte de álbum um tanto quanto confusa, "Band of Joy" é uma viagem (dessa vez, no sentido literal) de Plant pelo meio-oeste americano e pelo sul, redescobrindo o country americano. As faixas são claramente country, mas flertam com outros gêneros de jeitos nunca vistos. Em dueto com Alisson Krauss em algumas músicas, Plant passa do country dançante para o melancólico (e eu nem sabia se isso era possível) com sutileza, com faixas pesadas como "Silver Rider" e "Monkey", mais leves como "Cindy, I'll Marry You Someday" e inclusive um flerte com o gospel em "Satan Your Kingdom Must Come Down".
Um álbum original, apesar do que parece, e muito bom de escutar. Longe de redimir Plant pelos seus atos pós-Zeppelin, mas é importante separar o homem da obra. Podemos dizer que, sem o narcisismo, Robert Plant é um ótimo artista.
"And They'll laugh up and down the hall
Don't go shout when you hear them fall"
Angel Dance
Robert Plant
Band of Joy
Es Paranza (Decca Records)
sábado, 9 de abril de 2011
Heroes
Ao longo da história da humanidade, muitas pessoas incomuns surgiram. Pessoas com coragem, determinação ou capacidade de liderança muito acima do normal. Alguns dessas pessoas incomuns usaram suas capacidades com más intenções... Mas muitos deles contribuíram para arte e para o desenvolvimento do ser humano e da humanidade em geral.
Esses heróis mudaram o mundo, de um jeito ou de outro, e muitos heróis surgem em tempos de crise. De volta aos EUA dos anos 60, quando Martin Luther King Jr. lutava pelos direitos dos negros extremamente discriminados na sociedade norte-americana, um treinador branco de basquete universitário resolve se levantar contra a desigualdade e faz o que nenhum treinador jamais fez: Põe sete negros no time.
Essa história real foi imortalizada no filme "Estrada para a Glória" (Glory Road em inglês). Situado em uma faculdade texana, um estado extremamente racista até os dias de hoje, o filme conta a história de Don Haskins, técnico branco de basquete que organiza um time com negros. Saindo à procura de talentos, Haskins convida tanto negros quanto brancos para o time Texas Western, e os ensina a jogar como um time. A idéia enfrenta oposição desde o começo, quando o principal patrocinador dos Miners (apelido do Texas Western – não me pergunte por quê) pergunta à Haskins porque há tantos "crioulos" no time. Durante os meses iniciais de treinamento, Haskins começa a traçar um perfil de cada jogador, e até corta alguns da escalação... Ele tenta mostrar aos negros o basquete profissional e afastá-los do basquete de rua, o qual eles estão acostumados.
Quando o Texas Western finalmente entra em campo, em casa, são aplaudidos e encorajados. Eles vencem o primeiro jogo, e fazem uma temporada fantástica, viajando pelo país, brancos e negros, todos ali pelo mesmo motivo: o basquete. Até que começam a ganhar fama e a serem notados pela sociedade americana, e em conseqüência...
Os primeiros atos de racismo acontecem quando um dos jogadores é espancado em uma das cidades em que jogam. Depois o técnico começa a receber ameaças na sua própria casa, ameaçando seus filhos e sua mulher, que por sua vez também é isolada das festas sociais do Texas por causa de seu marido. Por fim, no auge do sucesso, o racismo acompanha, e uma tragédia acomete o time...
O filme é muito emocionante, e também um tanto quanto cômico, mas principalmente chocante. Entrar em contato com um racismo tão forte é difícil, e ter que encarar pessoas que desprezam e julgam outras pessoas apenas pela cor da sua pele também não é fácil. No fim, o preconceito não é apenas sobre raças. É sobre origens, de onde seu sangue vem, quem seus ancestrais foram. E existem até hoje pessoas dispostas a julgar, condenar e matar pelo simples motivo de terem sido educados para acreditar em uma raça superior e outra inferior. E tal preconceito é encorajado pela mídia, e até abusado em alguns casos. De tanto ouvirem que são inferiores, os afro-descendentes acabam acreditando nisso e acabam usando essa alienação para justificar qualquer ato. Porém, mais importante do que ver uma manchete no jornal e sussurrar "que mundo louco esse em que vivemos" é se solidarizar e dedicar um pouco do seu tempo em assistir filmes como esse e pensar nesses heróis da humanidade, que surgem em tempos de crise e tão rapidamente quanto surgiram, desaparecem como poeira no vento. Mas não antes de ter deixado sua marca nesse mundo louco em que vivemos. Não antes de terem sido consagrados heróis.
"We can be heroes, just for one day
We can be us, just for one day."
Heroes
David Bowie
Heroes
Virgin Records
sábado, 2 de abril de 2011
Highway to Hell
A diversão de assistir ou ler histórias policiais é, para mim, tentar descobrir a solução antes do protagonista. Nas melhores histórias, você erra e se surpreende com a solução, mas durante a história você torce pelo protagonista. Histórias bem ao estilo Sherlock Holmes, em que você se debruça sobre o livro e o devora como se estivesse assistindo um filme de ação. Na maioria das vezes, o protagonista é o mocinho, e confronta os bandidos e por fim acaba vencendo. Porém, mais interessante que as histórias onde o bem sempre triunfa sobre o mal, são aquelas em que isso nem sempre é verdade. Histórias de anti-heróis atraem tanto ou mais do que aquelas em que o mocinho sempre vence no final. Como toda boa história, você se pega torcendo pelo protagonista. Porém, em histórias de anti-heróis, você acaba querendo que o mal triunfe...
Mas o que é o mal? Apenas uma questão de perspectiva? A estrada para o inferno está cheio de boas intenções. No fundo, no fundo, os "vilões" na verdade tem um motivo nobre. A diferença é que eles não medem esforços para alcançá-los e acabam se utilizando de meios não muito éticos ou humanos. Mas tais fins, que acabam justificando os meios, são sempre muito nobres.
É mais ou menos nessa perspectiva que se baseia o anime (animação japonesa) "Death Note". Em inglês, Death Note significa caderno da morte, embora o caderno em si seja apenas um instrumento...
A história se passa nos dias atuais, no Japão. Yagami Raito (As traduções ocidentais mudam seu nome para "Light" Yagami) é um estudante brilhante que tem uma vida perfeita, mas é entediado. Ele acredita que o mundo esteja podre, porém não tem poder para fazer nada a respeito. Isso muda drasticamente quando, saindo de sua escola, ele encontra no chão um caderno negro, com os dizeres "Death Note" na capa. É um caderno em branco como qualquer outro, a não ser pela sua primeira página. Nela, estão instruções, que explicam que o humano que tiver seu nome escrito no caderno... Morrerá.
Com uma série de regras diretas, o Death Note se prova ser real, e não só mata, mas também permite definir a causa da morte e as ações que a vítima executará antes de morrer. Porém, nada vem de graça. Ao final de alguns dias com o Death Note, Raito recebe a visita do dono do caderno. Ele pertence a um Shinigami, um deus da morte da mitologia japonesa. Esse Shinigami, chamado Ryuku, diz que deixou seu caderno cair no mundo humano porque estava... Exatamente como Raito... Entediado.
A partir daí, vemos o verdadeiro significado da expressão "poder corrompe". Raito, antes um estudante simples, decide usar o caderno para limpar o mundo do mal, escrevendo nele nomes de criminosos. Seu plano, cuidadosamente traçado, prevê que, ao final de seu trabalho, ele criará um novo mundo no qual ele será a justiça absoluta, o juiz de toda a terra... Um Deus.
Porém suas ações não passam despercebidas, e o melhor detetive do mundo inteiro, conhecido apenas como "L", se compromete a pegar o assim apelidado pela mídia "Kira". Porém ele terá se esforçar mais do que o normal para pegar um criminoso que não deixa vestígios e não precisa de nada mais que o nome e o rosto para matar...
A história se desenrola como um conto policial dos melhores, com jogadas de mestre de ambos os lados. O anime é emocionante de assistir, e mais ainda de tentar prever os movimentos de cada um dos lados... Mas não se engane: Yagami Raito é inescrupuloso e cruel, e não medirá esforços para atingir seu novo mundo. Desde matar pessoas inocentes a usar as pessoas que mais ama, nada será exagero para que Kira crie seu novo mundo. Porém o processo o mudará mais do que ele imagina...
Escrito por Tsugumi Oba e ilustrado por Takeshi Obata, Death Note, mangá que virou anime, é essencial para quem gosta de histórias de suspense e policiais.
"I'm on the highway to hell"
Highway to Hell
AC/DC
Highway to Hell
Columbia Records
terça-feira, 29 de março de 2011
Dazed and Confused
O imaginário humano não tem limites. Tanto o antigo quanto o atual. O universo Tolkeniano é tão ou mais rico que a mitologia grega. Batalhas épicas, criaturas fantásticas e histórias que refletem os conflitos humanos. Esse tipo de história ficou muito popular nas décadas de 70, 80 e 90. Começou com Tolkien e C.S. Lewis, e depois vieram muitos outros seguindo o mesmo gênero. Geralmente o mundo onde a história se ambienta é um mundo medieval, com cavaleiros em armaduras brilhantes, donzelas a serem salvas e tarefas quase impossíveis cumpridas pelos heróis mais improváveis. Realmente, dúzias desse tipo de obras (com suas próprias variações que as tornam únicas, como, por exemplo, o steampunk) apareceram por aí nos últimos anos. Transformadas em filmes, jogos de tabuleiro e videogames, essas obras são especiais e muito diferenciadas, mas olhando a grosso modo, são o mesmo gênero. E para todo status quo, há alguém que o contesta e que nada contra a corrente.
Bom, quando os livros de fantasia são o status quo, surge seu maior ridicularizador: Terry Pratchett.
Terry Pratchett é um inglês que, farto das obras de fantasia, decide criar sua própria. Porém ela é totalmente satírica, carregado de críticas sociais e o melhor do... Incomum humor inglês.
Ele publica então "A Cor da Magia", um livro sobre um mago fracassado que é obcecado pela idéia de que, na sua morte, o próprio Morte terá que vir buscá-lo. Estranho? Essa história se passa no mundo de Discworld, um mundo plano carregado por quatro elefantes gigantescos em cima do casco de uma tartaruga mais gigantesca nadando por um oceano ainda mais gigantesco (Na verdade Pratchett pegou essa idéia emprestada da mitologia hindu). Mais estranho?
Discworld é regido por um sem-número de deuses jogando xadrez com outros deuses, onde as peças são os seres humanos. Esses deuses comandam criaturas míticas como o Morte (sim, no masculino mesmo) e brincam com a vida dos homens. Esse primeiro livro da série Discworld fala sobre Rincewind, um mago reprovado na escola de magia e vive de truques baratos para sobreviver na corrupta Ankh-Morpork, uma crítica social das mais pesadas. Em Ankh-Morpork, por exemplo, existem guildas regulamentadas como a dos ladrões e a dos assassinos, que tem representantes no governo, e um sistema social estranhamente parecido com o capitalista selvagem... A vida de Rincewind muda quando uma oportunidade surge: um turista vindo de uma terra riquíssima chega à Ankh-Morpork, querendo conhecer as sutilezas de uma terra tão bárbara, por um acaso Rincewind acaba sendo seu guia. As situações que os dois vão encontrar são engraçadíssimas, até porque enquanto o turista DuasFlor (sério, esse é o nome dele), um completo idiota, acha tudo muito divertido e inclusive paga pela diversão de ser assaltado, participar de uma briga de bar e ser raptado por dragões, Rincewind é um covarde do mais alto nível.
Apesar de maravilhoso, o livro pode parecer confuso para aqueles não-familiarizados com as obras de fantasia mais tradicionais, como "O Senhor dos Anéis" e "Crônicas de Nárnia" entre outros. Mas é impossível não se divertir com as aventuras de uma dupla tão inusitada.
Mas talvez o seu melhor livro não seja tão satírico assim. No começo, Discworld era para ser apenas uma brincadeira, uma paródia com as obras de fantasia que faziam tanto sucesso no final dos anos 80. Mas Terry Pratchett conquistou o público, e Discworld virou uma série com sua própria mitologia, exatamente como a de Tolkien. Sem nunca deixar de lado a sátira e o humor inglês, Pratchett foi se aprofundando. Uma das suas últimas obras é discutivelmente a melhor: "O Fabuloso Maurício e seus Roedores Letrados".
A história varia mais para o suspense do que para a comédia. Maurício é um gato, que por meio de um... Acidente adquire intelecto humano. Mas ele não é o único. Ele encontra um grupo de ratos também com inteligência humana. Esses ratos se submetem ao seu comando, bem como um flautista ingênuo, e assim Maurício e seus roedores letrados passam de cidade em cidade prometendo curar a epidemia de ratos ali presente. O flautista toca algumas notas, e centenas de ratos imediatamente saem de seus esconderijos e seguem o flautista para fora da cidade. A verdade é que os ratos com mais inteligência convencem os ratos comuns a infestar a cidade, bem como os convencem a sair quando ouvirem uma flauta... Assim Maurício enriquece. A história por si já é interessante, pois os ratos com inteligência humana também tem características humanas... Eles se sentem solitários, amorosos, rancorosos, tem ambição, ganância e inclusive uma religião! Mas Maurício os mantém (e ao flautista) controlados com mentiras, mas alguns ratos são mais difíceis de convencer do que outros...
Os cinco primeiros ratos inteligentes, e os seguidores de Maurício, são: Perigoso Feijão, um ratinho frágil mas muito inteligente, sempre envolvido com questões existenciais das mais profundas. Pêssego, uma rata com uma capacidade de argumentação e liderança de rivalizar com os maiores oradores e políticos. Bronzeado Intenso, um rato durão, chefe do Esquadrão Anti-Ratoeiras e especialista em desarmá-las. Sardinhas, um rato dançarino e brincalhão, que encara tudo com diversão. E por último o chefe, Fiambre Suíno, o mais velho dos ratos, e o mais teimoso.
A história começa quando eles decidem fazer seu último trabalho na cidade de Panqueca Estragada. Mas coisas estranhas estão acontecendo na cidade. Há uma epidemia de ratos real, e dois caçadores de ratos contratados mexeram com poderes mais antigos e mais poderosos do que imaginam para lidar com ela...
O livro é muito divertido por mexer com o surreal e também com características humanas refletidas nos ratos. A história toma rumos muito macabros com o passar do tempo, e o jogo que Pratchett faz com os capítulos, intercalando as histórias dos ratos com a de Maurício e do flautista é digno do mestre que ele é.
Pratchett é um escritor muito engraçado e relaxante de se ler, com uma leitura mais leve e que flui mais facilmente... E ainda assim com um toque de suspense na medida certa. Vale à pena conhecer. O humor ácido de Pratchett o deixará tonto e confuso.
"Been dazed and confused for so long (…)"
Dazed and Confused
Led Zeppelin
Led Zeppelin I
Atlantic Records