terça-feira, 15 de maio de 2012

Sobre o Olhar


O ser humano é um ser visual. A visão é o sentido mais desenvolvido do homem, e nós, mais do que todos os outros animais, dependemos desse sentido. Enquanto é normal pedir por silêncio, pedir para que as pessoas fechem os olhos é aceitável em poucas ocasiões... Muitas delas muito íntimas. Essa é outra evidência de que, na nossa cultura, a visão não só é importante, porém íntima e crucial para as relações sociais.

Todo ser humano julga outro ser humano baseado na aparência: Se algo lhe apetece, se algo causa repugnância; Se algo causa pena, ou admiração. Tudo isso é decidido em segundos, através do olhar e de valores culturais, pré-estabelecidos. Mais além: com base nessas informações, formamos uma opinião completa e criamos uma personalidade para essa pessoa que nunca vimos antes. Essa capacidade humana, tão próxima do preconceito, é completamente baseada no olhar.

Esse olhar, que parte corações e põe fim a guerras! Certas pessoas travam diálogos filosóficos apenas com os olhos, certas de que seu interlocutor entende cada particularidade do argumento. Certos olhares, tão carregados de sentimento, podem ser um tornado devastador. Outros podem ser uma brisa reconfortante, capaz de levantar o mais deprimido dos ânimos. Tal é o poder da visão que ela leva a outros sentidos. Em certos momentos, o olhar pode vir acompanhado de uma sinfonia perfeita, ou de um trovão retumbante. E quando ele quer dizer mais do que os sentidos podem expressar... 

O olhar que antecede o beijo, o olhar que clama por amor. Sentimentos tão poderosos, tão colossais que, quando não há mais nada que possa ser dito com palavras, eles se expressam com os olhos...  É costumeiro dizer que os olhos são as janelas para a alma. Pelo contrário: a alma é uma janela. A janela para o que há de mais profundo no ser. E cabe a nós ver através do óbvio e do aparente, e adentrar esse plano inexplorado. Pois os olhos... Os olhos são as janelas da alma.

quarta-feira, 21 de março de 2012

O Violinista


O antigo edifício geme com o vento. É um velho rabugento que reclama da chuva, do sol ou dos dois juntos. Os andaimes rangem, ocupando por um segundo o pensamento do transeunte, antes que ele volte a pensar nas contas pra pagar e na data de vencimento das mesmas.

Os andaimes estão pendurados sobre o edifício como uma máscara, que quando retirada impressionará a todos com a beleza de seu novo rosto. Embora cara, a restauração era necessária. O edifício é mitológico. Um ponto de encontro, um ponto na paisagem, ou simplesmente um ponto em uma estatística, o prédio já se tornou parte na vida de todos. De fato, caso você tivesse tempo, disposição e dinheiro, poderia estudar a fundo a vida de cada uma das pessoas da cidade, apenas para perceber o que eu já lhe disse: Cada um desses indivíduos tem uma história ligada a esse prédio.

Por exemplo, há na porta do edifício um violinista. Ninguém sabe se foi contratado ou se é apenas desocupado, mas todo dia às sete da manhã, preciso como um relógio, o violinista toma sua posição e enche o preguiçoso ar da manhã de música.

Tem um poder impressionante, essa música. Alguns cidadãos, tão antigos quanto o edifício e tão desocupados quanto o violinista, especulam que ele é na verdade um famoso maestro italiano (embora as más-línguas digam que ele é búlgaro) que, cansado de seu sucesso na Europa, preferiu atravessar o oceano e morar no anonimato.

O fato é que a música tem poder tal que pode erguer um homem abatido, mesmo nas suas horas mais sombrias. E, assim como os andaimes escondem a verdadeira face do edifício, o rosto do violinista é coberto por um cachecol poeirento, que cobrem a boca e o nariz, mas deixa descobertos os olhos, quase sempre fechados em extrema concentração. Ultimamente os acordes são interrompidos por uma tosse violenta, mas nada que abale o espírito do músico. Ele se endireita, ajeita o cachecol e quando retoma de onde parou parece fazê-lo com o dobro da intensidade.

De quando em quando um desses ricaços desesperados por redenção e por qualquer coisa que dê conforto às suas almas oferecem somas absurdas ao músico, oferecem uma orquestra inteira ao seu comando, prometem uma viagem de volta à Itália (ou seria a Bulgária?), tudo pelo prazer de ter o violinista só para si. O sábio ítalo-búlgaro sempre recusa sem nem dizer uma palavra, mas é fácil imaginar o que está pensando. Não há dinheiro no mundo que possa fazê-lo abandonar o prazer de acalmar a aflição dos transeuntes que mal tem tempo de pensar. Geralmente é na nona ou décima abanada negativa do violinista que os ricos perdem a paciência e partem para as ameaças vãs. Em resposta a isso, o violinista faz o que sempre faz: continua tocando.

Já que não é possível tirar o mítico músico de seu palco natural, muitos tentaram gravar sua genialidade e transmiti-la pelo mundo. Certa vez uma equipe inteira de gravação se instalou na calçada e gravou o violinista em um dos seus momentos de máxima concentração e paixão. O arco voava em suas mãos, e o som parecia a voz das ninfas sussurrando por entre as árvores. Estranhamente, o que foi gravado naquele dia nunca foi lançado. Até hoje, os estudiosos não chegam a um consenso com relação ao que houve com a gravação. Alguns dizem que o diretor se comoveu tanto que resolveu guardar a faixa para si mesmo. Outros dizem que ela simplesmente estragou inexplicavelmente, uma clara demonstração dos poderes sobrenaturais do violinista. Mas o fato é que o único jeito de conhecer a obra completa desse músico é assistir a sua apresentação diária em frente ao edifício.

No dia em que os andaimes foram retirados, houve uma grande festa de inauguração do novo edifício. O violinista foi convidado para abrir a cerimônia, mas ele desapareceu misteriosamente um dia antes que o convite fosse feito.

Muito se diz sobre o desaparecimento do músico. Alguns juram que ele foi visto em outra cidade, dessa vez com um cachecol diferente, tocando em frente a um edifício diferente. Outros acham que ele finalmente aceitou o convite de um ricaço e voltou para a Europa, mas os entendidos no assunto dizem que ele jamais faria isso. Alguns aceitam que ele simplesmente morreu e está enterrado em uma cova anônima, enquanto outros acham que ele voltará um dia e tocará para sempre até o fim dos tempos. Mas os sábios de verdade só tem certeza de uma coisa: Em resposta a tudo isso, o violinista faria o que sempre fez: continuaria tocando.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Mito do Jornalismo Neutro


Em uma reunião de amigos, no final da noite, depois daquela sexta latinha de cerveja, o cara que se acha entendido de política fica todo filosófico e solta, sempre acompanhado de um palavrão estrategicamente posicionado, uma crítica à mídia nacional (e às vezes internacional, para parecer ainda mais intelectual). É o estopim para que aquilo que era um grupo de amigos em um encontro casual vire um grupo de estudos com os melhores cientistas políticos, sociólogos e professores de universidades presentes. Eles discutem a situação deplorável da mídia, argumentando com números totalmente inventados e citações de origem duvidosa até que a chama se apaga, os experts ficam sonolentos e todos vão pra casa, certos apenas de uma coisa: A mídia não é neutra.

Apesar de nosso grupo de amigos nem tão fictício assim acordar no dia seguinte sem nenhuma lembrança do resultado da discussão que com certeza trouxe uma solução para a crise econômica e a fome mundial, a questão é válida. Existe mídia neutra? Se sim, até que ponto?

A grande certeza é que alguns veículos de mídia são escandalosamente favoráveis a partido A, e vergonhosamente hostis com partido B. Esses são os mais inofensivos. Eles têm manchetes em letras garrafais, quase sempre acompanhados de pontos de exclamação. O remédio é fácil: Simplesmente ignorá-los. Eles claramente não são neutros, algumas vezes até pertencem ao partido A, e o leitor está perfeitamente ciente que, se der atenção a eles, só ouvira maravilhas de fulano e calamidades de beltrano. É o caso de alguns países vivendo ditaduras, nos quais o líder, glorioso líder, é o salvador de uma nação ameaçada pelo imperialismo estrangeiro. A mídia faz de tudo para criar essa imagem de líder perfeito, em alguns casos beirando o ridículo. 

 Outros veículos de mídia não declaram sua preferência, mas omitem notícias e dão destaque a outras, fazendo a cabeça do leitor, espectador ou internauta sem que esse perceba. Esses são mais perigosos. O cidadão com um pouco mais de senso crítico procura um jornal neutro, e encontra esse, com letras convidativas e manchetes nem tão simples e nem tão complexas. Escondidas por trás de uma aparente neutralidade estão crenças políticas, sendo implicitamente colocadas na mente daquele que as ouve. Assim é a mídia de países democráticos, com eleições regulares e rotatividade no poder. Aparentemente neutra, discretamente imparcial.

 O grande problema é o que cidadão mais básico, que assiste jornal só por que está passando na televisão, é influenciado por esse jornalismo nada neutro. E como tudo que passa na televisão tem que ser verdade, esse cidadão acaba acreditando de bom grado, por falta de que acreditar. O ser humano necessita de um vilão e de um mocinho tanto quanto precisa de um governo. A mídia o ensina a antagonizar esse e favorecer outro. Sem senso crítico algum, o cidadão engole a verdade distorcida e acredita piamente nela, levando essa crença para o lugar mais perigoso de todos: As urnas.

O dever primordial da imprensa é informar. O ideal seria transparência total de governos e demais instituições, e se isso acontecesse não haveria necessidade de um jornal dizendo o que está havendo no mundo.  Mas não vivemos nessa utopia, a imprensa existe e é imprescindível para a justiça e para essa frágil forma de governo chamada democracia. Alguns veículos de mídia se esforçam para se manterem neutros, mas sempre há uma notícia que é mais importante que a outra. O principal é a alternância. Um bom veículo de mídia analisa várias visões políticas diferentes, informando de tudo um pouco. Um bom cidadão lê, ouve ou acessa mais de um veículo regularmente. É importante ter duas fontes de informações, mesmo que elas parecem neutras e iguais. Os detalhes são tudo.

E é sempre bom ter uma percepção geral. Uma coisa é um jornal claramente imparcial. Outra é ler vários jornais, todos dizendo, de jeitos diferentes, a mesma coisa. Aí, talvez o problema não seja com a imprensa, mas sim com o governo.

Aí cabe ao cidadão quem xingar em uma discussão com os amigos no fim da noite.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ela

Então, ela não estava mais lá. Foi algo súbito, como um terremoto ou um furacão, e tão devastador quanto. Embora mais tarde Eduardo tenha percebido que não fora nada súbito. Fora mais uma tempestade, com todo o terror que uma tempestade traz, mas também com a lentidão com a qual ela se forma. Nuvens escarças apareceram onde antes o céu era límpido e de um azul estonteante. Não era algo com o que se preocupar, mas logo as nuvens se avolumaram, e logo elas enchiam o céu. Quando os trovões soaram, já era tarde demais. Ela se fora.

Eduardo caminhou pelo apartamento bagunçado, que agora parecia vazio. O apartamento era pequeno, eles concordaram que não queriam muito luxo, mas ele parecia mais rústico do que simples. O assoalho branco estava encardido, e os estofados coloridos pareciam zombar dele e de sua desolação.

Ele pensou em sair, se afastar de tudo aquilo que fazia despertar memórias, tão doces, mas agora tão dolorosas. Havia um retrato na mesa, uma mesa logo em frente da porta, um retrato que dava as boas vindas ao lar. Eduardo abaixou o retrato com tristeza. Ele não queria mais ver seu sorriso, seu lindo sorriso, capturado para sempre em um momento único. Por um momento ele pensou em ir atrás dela. Quão absurdo seria, fingir que nada acontecera? Como se eles pudessem ser um casal feliz de novo depois de uma briga tão horrível. Depois de dizer coisas a ela, coisas que ele não queria dizer, mas que disse mesmo assim quando a fúria tomou conta. Ela não respondera. Ela tinha ficado quieta, muito quieta, e quando ele terminou, ela apenas pegara suas coisas e partira. E arrancara o coração dele de uma vez.

Eduardo ficou andando pelo apartamento por um tempo, sem querer se sentar, sem querer sair, sem querer falar. Ele fechou os olhos, esperando que quando os abrisse estivesse em sua cama, no começo do dia, e nada daquilo tivesse acontecido, e ela ainda estaria do seu lado.

Ela.

A menção dela na sua mente mandou um arrepio pela sua espinha. Quanto mais pensava no passado, maior a sensação de desespero ficava, e se enterrava mais fundo na sua alma. Por fim Eduardo cansou de pensar, mas não de sofrer, porquê quando se deitou a cama tinha o cheiro dela. Entre seu odor masculino e fétido, lá estava, um resquício dela. Eduardo se agarrou a isso o dormiu, e sonhou, e não houve um sonho naquela noite que não falasse dela. Alguns foram pesadelos, e Eduardo se impressionou com o que o seu cérebro era capaz de fazer para causar culpa.

Por fim, ele não aguentou mais. Levantou-se, e enquanto o sol nascia saiu do apartamento, deixando tudo como estava, e foi até ela. Eduardo não sabia para onde ia, mas sabia que tinha que ir. Desceu as escadas, impaciente para esperar por um elevador, e ganhou a rua, e então perdeu o fôlego.

Porque lá estava ela.

Do outro lado da rua, parada, de costas, com um cigarro preso entre dois dedos, com uma leveza sobrenatural. Ela tragou longamente, e soprou a fumaça para cima. Seu cabelo estava preso, coisa que ela sempre fazia quando estava irritada. Ela então se virou subitamente, e seus olhos se encontraram através da rua pouco movimentada e iluminada pelos primeiros relances do sol. Ela não tinha dormido nada, Eduardo conseguia perceber. Mas mesmo assim era de uma beleza inebriante. Não havia um pingo de raiva no seu rosto, e Eduardo também conseguia perceber isso. Ao invés disso ela indagava com os olhos o que ele faria a seguir.

Eduardo não tinha dúvida.

Atravessou a rua de um pulo, e se um carro tivesse passado nesse momento ele pularia por cima dele apenas para alcança-la.

Ele começou a falar, cuspindo uma palavra atrás da outra, se amaldiçoando por sua estupidez, mas ela, com um sorriso no rosto, apenas o calou com um beijo.

Ele não teve argumentos contra isso.

Eles se abraçaram como se tivessem passado mil e uma noites separados, e então andaram de volta para o apartamento para se arrumar para o dia que nascia.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A Saída para o Tédio

O que você faz quando está entediado?
Com certeza não é arrumar o seu quarto. Quando bate aquela sensação de chatice, todos nós ligamos e computador e entramos na internet. Entramos em redes sociais, em sites de humor e às vezes até na Wikipedia, apenas pra uma hora depois nos perguntarmos por que diabos estamos lendo sobre as origens do Metal norueguês.
Mas o que fazer quando você atingiu a última página da internet? O que fazer quando nem a vote Page do 9GAG acaba com seu tédio? O que fazer quando você já cansou, já clicou e mesmo assim continua entediado?
Games em flash são a resposta.
Games em flash são como videogames, só que na internet. Eles variam de mais simples com gráficos básicos e produtores independentes para mais elaborados, com estúdios inteiros dedicados à sua produção. Um game em flash é interessante pra você, meu amigo entediado, por que ele só necessita de conexão com a internet para jogá-lo, por que ele é geralmente curto, sem compromisso e te permite fechar a página a qualquer hora sem peso na consciência e sem se perguntar se seu tempo e dinheiro valeram à pena.
Mas é preciso ir além do click jogos. Games em flash podem ser extremamente cativantes, e rendem boas horas de diversão. Desde jogos em que você é um James Bond na época de Sherlock Holmes (Dirk Valentine, www.nitrome.com/games/dirkvalentine ) a jogos em que você é um mago atravessando um labirinto e lutando contra hordas de monstros usando suas gemas (Gem Craft Labyrinth, www.kongregate.com/games/gameinabottle/gemcraft-labyrinth ) os jogos em flash têm conceitos inovadores e impressionantes.
Um dos estúdios mais famosos é a Nitrome, grupo de programadores ingleses que criaram recentemente seu centésimo jogo. Os jogos da Nitrome têm controles muito simples, gráficos muito fofos e idéias  muito criativas. www.nitrome.com
Outro estúdio renomado é o Armor Games. (www.armorgames.com )Com jogos mais trabalhados, a Armor Games é especialista no tipo Tower Defense, modo de jogo no qual você monta torres e se protege contra ondas e mais ondas de inimigos.
Ainda existem sites que reúnem todos esses jogos e tornam a experiência de games em flash muito mais divertida. O maior desses sites  é o Kongregate (www.kongregate.com ).
Tudo isso, claro, se você não se entediou até chegar aqui.

sábado, 26 de novembro de 2011

Alma Protetora


Certas construções têm alma. Parece que edifícios que já viram de tudo absorvem algumas características de seus habitantes. Prédios com crianças têm um ar infantil, com suas cores vibrantes e imagens agradáveis, seus corredores amplos e convidativos. Prédios com executivos são cinza e desprovidos de emoção, mas não de vida; eles são ansiosos e ávidos por mais, o que quer que ‘mais’ signifique. Porém algumas edificações emanam violência. Lugares públicos, sim, mas principalmente casas. Vidas arruinadas antes de sequer terem a chance de começar. E os edifícios se mantêm, cansados, mas firmes. Afinal, eles não têm escolha.
*
Antes de tudo ficar escuro, Tommy se lembrava de algumas coisas. As lembranças não traziam felicidade, mas eram as únicas que ele tinha. Ele se lembrava de pessoas correndo atrás dele. Ele nunca vira essas pessoas antes, mas não importava. As pessoas também nunca o viram antes. Elas conheciam, sim, o pai de Tommy. O pai de Tommy devia dinheiro para as pessoas. Não que Tommy se importasse. Ele só estava preocupado em trabalhar, ganhar algum dinheiro e fugir com sua irmã da vida de merda de seu pai.

As pessoas falam de bairros ruins. Todos dizem que bairros ruins são como árvores ruins: As frutas apodrecem antes que possam ser colhidas. Tommy não concorda. Ele acha que as pessoas são ruins, só. As únicas pessoas boas no mundo eram sua mãe e sua irmã, mas ele não sabia onde sua mãe estava. Ela os abandonara com o pai muito tempo atrás, tanto tempo que Tommy até poderia tentar esquecer que um dia tivera mãe. Agora só sobrava sua irmã. Prudence era pura. Tinha apenas doze anos, mas uma mente enorme. Ela ainda tinha esperanças, ela podia ser alguém na vida. Tommy precisava trabalhar, e conseguir emprego com dezesseis anos era difícil. Mas Prudence poderia viver uma boa vida, mesmo que isso custasse a de Tommy. E Prudence desenhava. Desenhos bonitos, mas manchados com as surras que o pai aplicava regularmente, surras essas que Tommy não era forte o suficiente para impedir. Mas ele tentava, e tudo o que conseguia fazer era desviar a atenção de seu pai para ele próprio. E então tudo ficava escuro de novo.

Era engraçado apanhar das pessoas que queriam o dinheiro do seu pai, por que ele não tinha nenhum. Há muito tempo ele parara de trabalhar, e Tommy sustentava a casa com seu salário ridículo. O que sobrava desse salário era usado para comprar comida e pagar as contas, por que todo o resto seu pai perdia no jogo. Essa era a razão pela qual o pai de Tommy devia dinheiro para as pessoas. E, por uma infelicidade do destino, Tommy acabara de receber seu pagamento. As pessoas não se importavam se aquilo era tudo o que ele tinha, se ele e sua irmã passariam fome. Era dinheiro. As pessoas simplesmente bateram em Tommy até que ele desmaiasse, o que não demorou muito, e então tomaram seu dinheiro. As pessoas tomaram o dinheiro para si próprias, e acreditavam que agiam com justiça, assim podiam dormir com calma a noite, sob o teto de suas vidas miseráveis e vazias. A vida do pai de Tommy era mais miserável e mais vazia, e ele não merecia sequer ficar perto do o anjo que era Prudence, quando mais tocar nela.

Por isso, Tommy resolvera adiantar seus planos.

Quando acordou, ele pôs os pensamentos de volta. Ele estava sentado na sarjeta suja de todas as impressões humanas que passaram por ali. Todo lugar conta uma história, mas isso é outra história. Tommy se recompôs, e percebeu que tinha sido abordado no meio da rua, em pleno pôr-do-sol. Não havia lugar que estivesse livre da violência, e Tommy agora percebia isso. Por isso ele se preparou de acordo.

Ele apalpou o bolso do casaco, e respirou aliviado ao sentir o peso do metal e sua forma irregular através do couro barato. Ele usara parte do dinheiro guardado para comprar um canivete, mas não tinha certeza se saberia como usá-lo. Ele não o sacou contra as pessoas que o espancaram por que elas provavelmente tomariam o canivete também, e por que já não importava mais. Tommy pensou que deveria ter comprado uma arma de fogo. Um canivete era pessoal demais, sujo demais. Com uma arma seria limpo, preciso, quase cirúrgico. Sim, era isso. Seria a remoção de um câncer, um tumor que parasitara a vida de todos por tempo demais. Talvez um canivete fosse mais adequado, afinal. Esse câncer seria retirado de maneira muito pessoal.

Tommy levantou o olhar. Já estava em frente ao prédio, que mal poderia ser chamado assim. Um grande lixão humano, com muitas frutas podres e uma ou duas jóias refinadas enterradas bem fundo na merda. A luz do dia, prevendo os acontecimentos hediondos que se seguiriam, fugiu rapidamente e a noite imperava quando, pela milésima vez, Tommy entrava pela porta do 201 e via seu pai jogado no sofá, assistindo TV, com várias latas de cerveja vazias espalhadas pelo chão. Mas não dessa vez. Dessa vez, embora as latas amassadas e vazias decorassem o ambiente, seu pai não estava lá.

Um grito agudo atravessou o apartamento, e Tommy soube onde seu pai estava. Ele olhou para as paredes, vigias silenciosas e impassíveis, se despedindo delas. Elas quase choravam. As latas no chão zombavam dele, e Tommy chutou uma delas, fazendo barulho e anunciando sua chegada.

Não demorou muito e seu pai apareceu, bêbado como sempre, com a última garrafa de cerveja na mão. Prudence chorava no fundo do apartamento. Tommy olhou bem nos olhos da criatura que jamais poderia ser seu pai e perscrutou sua alma.

Não havia nada lá.

Tommy sacou o canivete, e com um clique ameaçador anunciou suas intenções. A criatura que era seu pai rugiu como rugem os animais que prevêem seu fim e estão cegos com a coragem obtida segundos antes do embate final.

-Você pensa que é homem, garoto? Eu sou seu pai!

As últimas palavras doeram, mas não significavam mais nada. A criatura ainda estava presa a conceitos de paternidade, como se aquilo a protegesse.

Tommy não se moveu. Seus pensamentos pegavam fogo, mas sua fisionomia era fria como gelo.

Seu pai, embriagado pelo álcool e pela fúria, virou a garrafa para baixo, e antes que o líquido escorresse, quebrou-a na parede. Os cacos de vidro tilintaram e se juntaram ao cenário que exalava morte. A criatura então ergueu o braço, o vidro pontiagudo pronto para uma investida.

Mas não houve uma. Tommy cruzou o espaço entre eles como uma flecha, e parou a descida do braço com o canivete enfiado no pulso do homem. A lâmina protestou, mas enfim se desprendeu da carne com um jorro de sangue. O homem caiu, pálido, nas portas da morte, e mesmo assim aterrorizado. O sangue escorreu em galões, sem que ninguém viesse impedi-lo. O homem grunhiu, tremeu, olhou desesperadamente para seu algoz, suplicando por uma piedade que já não o salvaria, e enfim morreu, deitado em uma poça de seu próprio sangue.

Tommy caminhou pelo apartamento. Ele estava quieto. Extremamente quieto. As paredes prendiam a respiração. O garoto, agora um homem, alcançou o banheiro e se livrou do canivete. Então foi até o quarto de Prudence. Chamou por ela. Uma, duas vezes. Nada. Um arrepio percorreu sua alma. Tommy correu pelo apartamento, gritando. Ele enfim encontrou respingos de sangue pelo chão. A criatura fizera Prudence sangrar dessa vez. Agora ela não seria mais tocada. Nunca mais.

Tommy seguiu o rastro de sangue, e encontrou aquilo que um dia fora uma alegre menina de doze anos. Seu rosto era uma ruína. Seu olho esquerdo não passava de um hematoma, e sua boca fora cortada. Ele a embalou, e ao seu toque Prudence recuou, mas ao perceber quem era, abraçou-o. Permaneceram abraçados até que Prudence pudesse se levantar, e então partiram. Os vizinhos não fazem idéia para onde foram, e muito menos a polícia. O corpo nunca foi requisitado do necrotério, e ali repousa, em eterno pânico e surpresa.

As paredes respiram aliviadas.