segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Anônimo - Capítulo 2



Marco caminhou pelo corredor, mal conseguindo conter seu espanto. Era tudo real.
Ele sabia que as pessoas ao seu lado olhariam para ele e se encheriam de respeito ao ver um senhor em um terno impecável, caminhando com resolução entre os outros empregados como se fosse dono do lugar. Marco sentia também que, se ele se dirigisse a um deles e pedisse um relatório de performance ou qualquer outro termo técnico complicado, eles se desesperariam no ato, correndo para satisfazer os desejos do homem que, provavelmente, fundara a firma. Aquele tipo de poder o consumia, e Marco se embriagava nele sem moderação.  Ele se sentia cheio de energia, ansioso para testar todas as possibilidades intermináveis que a Máscara proporcionaria...
E então, como um solo de piano interrompido em uma nota aguda demais, Marco se lembrou da funesta condição imposta pelo velho que, apenas algumas horas atrás, dera esse estranho presente. Uma semana de uso ou a morte? Marco estava perfeitamente saudável, e não planejava morrer tão cedo. Não quando ele possuía tamanho poder...
O jovem advogado alcançou sua mesa e, em uma fração de segundo, retirou a máscara e guardou-a. Seu corpo não sentiu nada, mas sua alma percebeu que as pessoas não mais olhavam com deferência e espanto. Marco tecia planos complexos e ideias intermináveis a fim de experimentar a máscara, e em uma tentativa inútil de se controlar ligou o computador mais uma vez, mas ele mal enxergava as imagens que apareciam na tela luminosa à sua frente. Não havia nada em sua vida vazia que se comparasse com a máscara, e ele mal podia esperar para usá-la de novo.
Ao final de um dos dias mais longos de sua vida, Marco arrumou suas coisas para deixar o trabalho. Não podia mais suportar a abstinência, e teria passado reto em frente ao seu chefe, se esse não tivesse gritado seu nome e gesticulado para sua sala, com um ar impiedoso. Com um grande esforço, o advogado deu meia volta e entrou na sala do chefe, tão espaçosa quando comparada com o cubículo minúsculo de Marco, e sentou-se com a mochila no colo, apalpando o tão desejado objeto de madeira.
-Marco, precisamos conversar.
O jovem mal prestava atenção no chefe. Sim, olhava para ele, mas através dele, com a imaginação correndo solta. Sua gravata queimava lhe a pele, forçando-o a alargá-la involuntariamente. O homem à sua frente continuava resmungando, mas sua voz estava abafada, como se falasse contra o vento. As próximas palavras, entretanto, tiraram o jovem de seu devaneio:
-Você está demitido, Marco.
Marco piscou, olhando sem entender. Seu chefe, um homem duns quarenta anos, franzia a testa, arregalando os olhos negros. Seu tom de pele claro fazia a luz da lâmpada refletir-se perfeitamente em sua cabeça calva, e sua expressão era de impaciência, como se não aguentasse mais a presença de um ex-empregado ali. Marco era inteiro choque. Após alguns instantes de silêncio desconfortável, Marco conseguiu balbuciar um patético “por quê?”.
-Francamente, a companhia não pode mais arcar com sua improdutividade, Marco. Nós sabemos que sua... decepção pessoal – Marco sabia que ele sabia exatamente quão afetado o jovem ficara após ter sido deixado por sua namorada – pode ter sido uma desculpa para problemas no passado, mas já faz muito tempo e, francamente, estou cansado desse seu olhar perdido! Nunca parece estar concentrado no mundo à sua volta, Marco! Já era tempo de acordar de sonhos e romances infantis.
O chefe se sentou, apanhou uma caneta, caçou uma folha qualquer em sua gaveta, e a retirou escandalosamente. Em seguida, assinou a folha, e o rabiscar da caneta no papel tornavam a raiva monumental de Marco inaudível. Ele considerou cuidadosamente usar a máscara para matar o chefe. Espera-lo do lado de fora do prédio, tomar a forma de um drogado qualquer e...
-Apesar de seu comportamento questionável, estou lhe escrevendo uma recomendação. Boa sorte no futuro.
Aquilo era o máximo que Marco podia suportar. Receber um pedaço de papel ridículo e ser mandando embora? E, pior, ser tratado como inferior por aquele homem que se considerava algum deus, detendo o poder de vida e morte, acreditando estar sendo piedoso? O jovem levantou-se de um salto e deixou a sala, desdenhando a recomendação. Agora mais do que nunca ele desejava desaparecer, nunca mais ser reconhecido. Agora Marco desejava anonimato completo.
E, sem perceber, ele já havia colocado a Máscara.
Como um viciado imediatamente após outra dose, Marco se sentiu no paraíso. Ele podia ser quem ele quisesse. Podia ser instantaneamente famoso ou jamais ser notado novamente. Sua mente atravessou as possibilidades, e ele sentia que a Máscara acompanhava seus pensamentos sem esforço, convidando-o a ser mais ousado, pedindo um verdadeiro desafio.
Mas os pensamentos do advogado estavam direcionados a sua vingança. Aquele homem medíocre estava prestes a aprender onde era o seu lugar. Se sentia tão poderoso, demitindo e contratando funcionários a seu bel-prazer... Marco considerou tomar a forma do velho de antes, passar-se por dirigente e demitir aquele que o demitira. Com certeza ele não seria questionado... Não, não seria duradouro. Teria que manchar a sua reputação de uma maneira irremediável, não dando espaço para dúvidas sobre o caráter daquele homem odioso.
A Máscara interpretou seus pensamentos, e antes que se desse conta, os outros empregados o cumprimentavam, o chamavam ‘chefe’. Marco mal pôde acreditar, embora não houvesse mais razões para duvidar. Caminhou casualmente até a janela, e examinou seu tênue reflexo no vidro transparente, mas isso foi suficiente: lá estavam a cabeça calva e os olhos negros. Ele havia se tornado o homem que tanto odiara... Literalmente.
Quão apropriado, pensou o jovem.
Saboreando cada momento, Marco desceu até a garagem do prédio, onde o manobrista lhe entregou imediatamente as chaves do carro do chefe, agora seu. Acomodou-se no banco de couro, olhou em volta e encontrou a carteira do chefe no porta-luvas. Um plano já estava consolidado na mente feroz de Marco. Ligou o motor e estava na rua, com o caríssimo automóvel. O advogado sentia o poder do motor, e se dirigia a um sinal fechado. Ele via os outros carros esperando a passagem das pessoas que, como ele, só tentavam seguir com suas vidas. Tanto pior, pensara.
Ele olhou de relance para os pedestres a sua frente, incapaz de sentir piedade. Então acelerou subitamente, e teve a impressão que não somente ele, mas a Máscara também sorria.
Os pedestres mal perceberam o que os atingira. Dois morreram no instante do impacto, um terceiro foi arremessado para longe e mais um feriu-se tentando se jogar.  Marco perdeu controle do veículo e bateu contra um poste, certo de que isso apenas adicionaria drama ao ato digno de peça teatral. Ele sentiu o cheiro de náilon quando o air bag se abriu, protegendo-o do impacto. Apesar de tudo, a Máscara continuava no lugar, e o jovem sabia que ainda mantinha a aparência de antes. Sabia também que a cena fora presenciada por dezenas de testemunhas, e quando cambaleou para fora do veículo e sentiu os olhares de horror dos transeuntes, percebeu que seu plano havia funcionado: Marco transformara o chefe em um assassino.
Ele se afastou do carro, largou deliberadamente a carteira do chefe no asfalto e correu para longe, a adrenalina impulsionando seu corpo, e alguns repentinos heróis tentaram persegui-lo, porém assim que virou a esquina Marco concentrou-se no velho repugnante e observou com satisfação seus perseguidores procurarem em vão por um homem branco careca. Não pode se conter quando viu que a identidade do homem havia sido encontrada e usou a voz pastosa do velho para perguntar, com a maior inocência do mundo, qual era o motivo de toda a comoção.
Marco nunca se sentira tão bem antes como se sentia agora, quando ouviu os indignados cidadãos apontarem para a foto na carteira de motorista e descreverem seu chefe como assassino, louco e outros adjetivos mais fortes. O advogado acenou com a cabeça, adicionando um genérico comentário ‘o mundo está perdido’ que julgara apropriado para um velho e se afastou quando ouviu as primeiras sirenes, muito embora não houvesse a menor possibilidade de que ele fosse conectado ao acidente.
O que era o poder de um superior em uma firma, quando comparado ao que Marco ostentava agora? Não demoraria muito até que ele fosse procurado pela polícia e preso, sem jamais entender. Talvez ele até pensasse estar louco, o que apenas tornaria a vingança mais deliciosa.
Quando estava longe de quaisquer olhares, Marco retirou a máscara, e o mundo perdeu a cor. Ele sentia sua mente mais lenta, sem ânimo nem propósito. No momento seguinte, a culpa o atingiu como o carro atingira aqueles pedestres minutos antes. Houveram mortes, feridos... Tudo para quê? Vingança... Um sentimento instintivo, inerente, insaciável e inescrupuloso. Marco conseguira o que queria, e começou a perceber que jamais poderia ter feito o que fez se não instigado pela máscara. Ele se lembrou da sensação de êxtase ao realizar sua vingança, convencido de que não havia nada melhor no mundo, seus pensamentos belicosos impulsionados pelo poder embriagante da máscara. Todo esse êxtase se fora e só restava a culpa, igualmente gigantesca, porém racional.
Marco andava sem rumo, perdido em seus pensamentos e em seu pesar, prometendo a si mesmo nunca mais tocar na maldita máscara, quanto estacou na calçada. Olhava fixamente para uma tela de televisão, sintonizada em um canal de notícias que relatava um acidente especialmente brutal em uma movimentada avenida da cidade. Seu pesar e culpa foram imediatamente substituídos por medo e desespero.
Pois na televisão, o noticiário passava as imagens inéditas de uma câmera de trânsito... Minúscula, quase invisível, mas que estava lá, e gravara a cena inteira. Realmente, era grandiosa como o ato final de uma ópera particularmente macabra. Exatamente como o velho dissera: As testemunhas viram a imagem calva de seu chefe atropelando aquelas pessoas. Porém, na câmera, as imagens mostravam um homem magro e alto, vestindo uma máscara de madeira. O fato de o acidente ter sido tão violento foi eclipsado: Todos os canais falavam do atropelador mascarado, e o que significava aquele objeto tão incomum. A polícia já traçava um perfil baseado no tipo físico do homem, e Marco empalideceu quando viu na tela um oficial descrever a aparência do advogado.
Ele quase podia ouvir a máscara gargalhar.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Anônimo - Capítulo 1

O tamborilar da água na janela encardida do ônibus embalava Marco em um sono sem sonhos. A cada tranco do velho monstro de metal, o recém-formado advogado se aproximava da sua ilustre morada: um apartamento pequeno, sujo e barato escondido entre dois prédios muito mais chamativos.
O ônibus barulhento parou para que Marco descesse; uma carruagem digna de seu príncipe. O jovem era relativamente alto, com a barba bem aparada como era de se esperar de um advogado de sua classe. O cabelo liso caindo na nuca e escondendo sua testa acentuava seus olhos escuros, lábios finos e nariz reto.
Marco nem se deu ao trabalho de correr debaixo da chuva torrencial, pois ele lera em algum lugar que isso só piorava as coisas, mas agora não tinha certeza; poderia ter sido o contrário. Ele puxou seu casaco para cima com força, com a esperança de que o gesto intimidasse a chuva e a fizesse parar. Já encharcado, Marco alcançou a porta de seu apartamento, forçou a chave pra dentro e dois lances de escada depois, adentrou a calma e a tranquilidade de seu castelo: livros largados pelo sofá, louça de dois dias entupindo a pia e comida congelada.
Passando reto por tudo isso, Marco alcançou seu laptop, sua janela para fora do mundo exterior que o sufocava.  Ao abri-la, seu browser mostrou as páginas mais visitadas, e como que zombando dele, lá estava a número um: a rede social da sua ex. Mais visitada que a sua própria. Protegido por uma tela, Marco revisou cada detalhe possível da vida dela: desde comentários em fotos até mensagens para tios, nada escapava da melancolia do advogado.
Por fim, cansou-se e desligou o computador. Empurrou alguns livros para o chão e dormiu no sofá, amaldiçoando seu chefe por fazê-lo acordar tão cedo. No dia seguinte, ao som de seu celular gritando e esperneando, ele amaldiçoou seu chefe mais uma vez enquanto se preparava para fazer a jornada de volta para um lugar que ele nem queria estar.
Com uma mochila no ombro, Marco correu para o ponto de ônibus, já atrasado. Ele ouviu os gritos do senhorio, algo sobre o aluguel, e sentiu uma vontade irresistível de descarregar sua frustação nele, mas já estava atrasado o suficiente.  Ao alcançar o ponto, respirou aliviado por meio segundo até se voltar para um casal, também esperando pelo transporte, se beijando sem pudor algum, ali, na frente de todo mundo. Isso enfureceu Marco, e ele desejou não estar cansado da noite mal dormida para dar um sermão naquela indecência.
Quando o ônibus chegou, Marco quis perguntar ao motorista por que tanta demora, pois ele já estava bem atrasado, mas não disse nada. Pagou ao cobrador silenciosamente e se sentou do lado da janela, com sua mochila ocupando o assento ao seu lado para evitar conversas desnecessárias porque, francamente, quem se importa em conversar com uma pessoa que você nunca viu e provavelmente nunca verá de novo?
Imerso nesses pensamentos, o olhar de Marco cruzou com o de um senhor de chapéu, a barba branca caindo do queixo e os lábios tortos, como se estivesse prestes a sorrir. Estava apoiado a uma bengala e, com a outra mão segurava-se para não cair com os solavancos do ônibus. Usava um capote cheio de bolsos e sapatos gastos, e tudo na sua aparência o dava um ar de desdém que enervou o advogado, o que não era muito difícil. O maior de seus temores se concretizou quando o velho, apontando para a mochila, pediu para se sentar ao seu lado.
Marco não teve forças para recusar, e em um protesto silencioso, retirou a mochila e se concentrou na janela, evitando qualquer contato com o velho. Infelizmente, o velho se inclinou e disse, com uma voz pesada, como se grunhisse:
-Você não queria estar aqui, queria, filho?
Marco se virou, como se não houvesse escutado direito, mas antes que dissesse algo o velho continuou.
-Se pudesse você estaria a milhares de quilômetros daqui, em uma praia ensolarada, numa ilha deserta. Mas talvez não precise. Quem sabe se você pudesse ser apenas invisível... Quem sabe então sua vida seria mais tolerável.
O jovem percebeu que o velho era louco, mas havia algo nele que o intrigava. Sua aparência parecia ter mudado de desdém para expectativa, como se pacientemente esperasse por algo tão certo quanto o pôr-do-sol.
-Você sabe do que eu estou falando – continuou o senhor – Anonimato. Ser capaz de dizer e fazer o que quer que queira, sem consequências.  Se tornar um completo estranho, inidentificável e invisível. Sim, você anseia por algo assim, não, criança?
Marco olhava sem entender, mas ele sentia que, no fundo, entendia muito bem. Seu âmago realmente desejava desaparecer, porém se fazer presente. Se ele pudesse ser o centro das atenções em um momento, fazer com que todos vissem o mundo como ele via em um discurso inspirador e sumir no momento seguinte... Isso seria simplesmente perfeito. Uma dádiva que Marco com certeza faria por merecer. Sua mente era um livro aberto para o velho, agora com a boca disforme contorcida em um sorriso malicioso.
-Eu posso fazer seu sonho virar realidade...  Se for o desejo de sua mente e de sua alma, assim será. – o velho tirou de dentro do casaco grande demais para ele o objeto mais feio que Marco já vira. Era uma máscara de madeira grosseiramente esculpida, com farpas em todo lugar devido a visível inexperiência do artesão e buracos malfeitos para os olhos, formando feições inexpressivas e perturbadoras – tudo o que você precisa fazer é pôr a máscara. Você jamais será reconhecido de novo; alcançará a forma mais pura de anonimato.
O impulso inicial de Marco era rir do pobre homem e dá-lo como louco, se livrando do problema imediatamente. Mas havia algo na máscara que o atraía, a própria feiura que o repelira também o intrigando. Ele quase podia ouvir a máscara sussurrando, chamando, gritando seu nome. Porém seus instintos de advogado o diziam que nada disso viria de graça, e o levaram a perguntar ao senhor, que segurava a máscara tão perto de Marco:
-E o que eu deveria fazer para receber esse... Presente?
-Absolutamente nada, meu caro rapaz! Eu espero que essa máscara traga paz a sua alma, só isso. Existem, porém, regras...
“Claro” pensou Marco. “Não acredito que ainda estou prestando atenção nesse maluco”, e ele desejou que sua parada chegasse para que ele tivesse uma desculpa para sair de perto do velho. Mas parecia que, por mais que o ônibus rodasse e sacolejasse, ele não avançasse de fato, como se estivesse parado no tempo, dando ao velho todo o conforto para continuar.
-A máscara tem o poder de deixa-lo irreconhecível a qualquer um. Você pode alterar sua aparência a seu bel-prazer enquanto estiver usando-a, e ninguém será capaz de discerni-lo. Se fotografado... – o velho grunhiu – não tínhamos que nos preocupar com isso algum tempo atrás... Se fotografado ou filmado enquanto usando a máscara, a câmera revelará a aparência grotesca do objeto. Então evite isso, sim?
Marco começou a acreditar que o homem falava sério, e uma sensação de desespero o atingiu. Ele não queria nada disso, e as palavras seguintes do velho apenas aumentaram sua angústia.
-Mais uma coisa. Se conseguir usar a máscara por uma semana, então ela é sua. Poderá usá-la até o resto de seus dias. Porém, embora a máscara o torne anônimo, ela não o torna imortal. Se você morrer usando-a, ela voltará a sua aparência normal, e seu corpo com ela. E, caso isso aconteça... Você é meu. – O velho abriu então um sorriso macabro, revelando dentes verdes e podres – para sempre.
O ônibus subitamente parou, e Marco reconheceu com alívio a sua parada. Ele saltou para longe do velho o mais rápido possível, certo de que aquele encontro povoaria seus pesadelos por muitas noites. Enquanto andava até o prédio em que trabalhava, ele não conseguia tirar da cabeça a imagem da máscara grotesca, suas farpas de madeira se soltando aleatoriamente da superfície em que estava estampado o rosto inexpressivo. Mas ele também não conseguia parar de imaginar o que teria acontecido se ele tivesse aceitado o objeto profano... Verdadeiro anonimato? Não era isso que, de fato, sua mente e sua alma desejavam?
Minutos depois, Marco havia esquecido tudo sobre esse episódio desagradável, e se concentrava no trabalho a sua frente. Não demorou muito para que este parecesse interminável e tedioso, e lá estava ele de novo na rede social de seu amor perdido. Um segundo depois Marco ouviu os passos de seu chefe e se apressou em fechar a página da internet, parecendo absorto em seu trabalho e completamente alheio ao fato de que seu superior se debruçava ao seu lado.
O homem fedia a hortelã, como se embebesse suas roupas na planta. Seu hálito era quente e sua presença, insuportável. Marco precisou de toda sua força de vontade para não se virar e gritar, mas ele se afastou lentamente, continuando seu passeio opressor.
O advogado bufou, pensando que alguém deveria colocar aquele homem no seu lugar... Quem ele pensa que é, supervisionando seus subordinados como se fosse um feitor de escravos? O jovem pegou sua mochila a procura de algo para beber. Se pelo menos ele não fosse demitido imediatamente após reclamar... Se pelo menos...
Então algo gelou o sangue de Marco. Na mochila, meio escondida entre uma capa de chuva... Estava a máscara. Como o velho teria conseguido coloca-la em sua mochila? Teria sido na sua pressa para se afastar? Como Marco não notara isso antes? E, mesmo assim, os olhos de madeira encaravam Marco diretamente... Desafiando-o a ver o mundo do seu jeito. Sua expressão vazia era quase tão perturbadora quanto seu pobre trabalho artesanal. O jovem considerou a ideia por um momento. Que mal poderia fazer? Era só uma máscara feia de madeira.
Marco se levantou subitamente, levando a mochila consigo para o banheiro, que por sorte encontrava-se vazio. Ele a largou no chão e tirou de lá a máscara, alternando seu olhar para ela e para sua própria reflexão no espelho. Era a primeira vez que ele a tocava. Sua superfície era áspera, e as farpas mordiscavam seus dedos. O interior era tão mal feito quanto o exterior, porém os buracos dos olhos pareciam brilhar, convidando-o a se aproximar...
Assim que a madeira tocou seu rosto, Marco fechou os olhos e inalou profundamente o cheiro de uma floresta impossivelmente antiga e misteriosa. Ele pensava no velho que lhe dera a Máscara, e imaginou quem ele era...
Quando abriu os olhos, Marco pulou para longe do espelho, aterrorizado. Na sua frente, a imagem do velho macabro materializara-se, com seus olhos maliciosos, sua barba mal feita e suas costas curvadas. Mas ele parecia tão assustado quanto Marco, se encostando à parede da mesma maneira...
O advogado então, movido por puro instinto, levantou lentamente sua mão esquerda, e olhou abismado para o espelho enquanto o velho fazia o mesmo. Ele levou as mãos à face e sentiu as farpas da Máscara, enquanto a imagem no espelho tocava seu rosto. Ao olhar para sua mão através das fendas da Máscara, tudo o que Marco via era uma mão jovem, com unhas bem cuidadas; Porém, ao olhar para o espelho, ele via a mão do velho, encardida e repugnante. O jovem (ou velho?) mal teve tempo de se perguntar como era possível quando ouviu o ranger da porta, e viu o olhar de espanto de um de seus companheiros de trabalho. Sua voz soava igualmente espantada:
-O que você está fazendo aqui? Como entrou?
-Co... Como? – Ao pronunciar as palavras, ele ouviu a voz pastosa do velho falando por sua boca. Ele percebeu que também estava vestido com os trapos do velho, exatamente como se lembrava deles, e parecia um mendigo. Marco resolveu então fazer um pequeno experimento, e imaginou o velho vestido com o mais fino terno, um relógio caro e sapatos importados. Imaginou sua barba bem feita, suas unhas limpas, seus dentes bem cuidados e sua voz resoluta. Então se dirigiu ao confuso colega – O que quer dizer, filho? Eu trabalho aqui há anos!
O outro pareceu confuso, e levou as mãos a cabeça como se a sentisse doer. Murmurou desculpas, e se apressou a pia para lavar o rosto. Marco sorria de orelha a orelha enquanto olhava de relance sua imagem no espelho, de terno, relógio e aparência austera.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Sobre o Olhar


O ser humano é um ser visual. A visão é o sentido mais desenvolvido do homem, e nós, mais do que todos os outros animais, dependemos desse sentido. Enquanto é normal pedir por silêncio, pedir para que as pessoas fechem os olhos é aceitável em poucas ocasiões... Muitas delas muito íntimas. Essa é outra evidência de que, na nossa cultura, a visão não só é importante, porém íntima e crucial para as relações sociais.

Todo ser humano julga outro ser humano baseado na aparência: Se algo lhe apetece, se algo causa repugnância; Se algo causa pena, ou admiração. Tudo isso é decidido em segundos, através do olhar e de valores culturais, pré-estabelecidos. Mais além: com base nessas informações, formamos uma opinião completa e criamos uma personalidade para essa pessoa que nunca vimos antes. Essa capacidade humana, tão próxima do preconceito, é completamente baseada no olhar.

Esse olhar, que parte corações e põe fim a guerras! Certas pessoas travam diálogos filosóficos apenas com os olhos, certas de que seu interlocutor entende cada particularidade do argumento. Certos olhares, tão carregados de sentimento, podem ser um tornado devastador. Outros podem ser uma brisa reconfortante, capaz de levantar o mais deprimido dos ânimos. Tal é o poder da visão que ela leva a outros sentidos. Em certos momentos, o olhar pode vir acompanhado de uma sinfonia perfeita, ou de um trovão retumbante. E quando ele quer dizer mais do que os sentidos podem expressar... 

O olhar que antecede o beijo, o olhar que clama por amor. Sentimentos tão poderosos, tão colossais que, quando não há mais nada que possa ser dito com palavras, eles se expressam com os olhos...  É costumeiro dizer que os olhos são as janelas para a alma. Pelo contrário: a alma é uma janela. A janela para o que há de mais profundo no ser. E cabe a nós ver através do óbvio e do aparente, e adentrar esse plano inexplorado. Pois os olhos... Os olhos são as janelas da alma.

quarta-feira, 21 de março de 2012

O Violinista


O antigo edifício geme com o vento. É um velho rabugento que reclama da chuva, do sol ou dos dois juntos. Os andaimes rangem, ocupando por um segundo o pensamento do transeunte, antes que ele volte a pensar nas contas pra pagar e na data de vencimento das mesmas.

Os andaimes estão pendurados sobre o edifício como uma máscara, que quando retirada impressionará a todos com a beleza de seu novo rosto. Embora cara, a restauração era necessária. O edifício é mitológico. Um ponto de encontro, um ponto na paisagem, ou simplesmente um ponto em uma estatística, o prédio já se tornou parte na vida de todos. De fato, caso você tivesse tempo, disposição e dinheiro, poderia estudar a fundo a vida de cada uma das pessoas da cidade, apenas para perceber o que eu já lhe disse: Cada um desses indivíduos tem uma história ligada a esse prédio.

Por exemplo, há na porta do edifício um violinista. Ninguém sabe se foi contratado ou se é apenas desocupado, mas todo dia às sete da manhã, preciso como um relógio, o violinista toma sua posição e enche o preguiçoso ar da manhã de música.

Tem um poder impressionante, essa música. Alguns cidadãos, tão antigos quanto o edifício e tão desocupados quanto o violinista, especulam que ele é na verdade um famoso maestro italiano (embora as más-línguas digam que ele é búlgaro) que, cansado de seu sucesso na Europa, preferiu atravessar o oceano e morar no anonimato.

O fato é que a música tem poder tal que pode erguer um homem abatido, mesmo nas suas horas mais sombrias. E, assim como os andaimes escondem a verdadeira face do edifício, o rosto do violinista é coberto por um cachecol poeirento, que cobrem a boca e o nariz, mas deixa descobertos os olhos, quase sempre fechados em extrema concentração. Ultimamente os acordes são interrompidos por uma tosse violenta, mas nada que abale o espírito do músico. Ele se endireita, ajeita o cachecol e quando retoma de onde parou parece fazê-lo com o dobro da intensidade.

De quando em quando um desses ricaços desesperados por redenção e por qualquer coisa que dê conforto às suas almas oferecem somas absurdas ao músico, oferecem uma orquestra inteira ao seu comando, prometem uma viagem de volta à Itália (ou seria a Bulgária?), tudo pelo prazer de ter o violinista só para si. O sábio ítalo-búlgaro sempre recusa sem nem dizer uma palavra, mas é fácil imaginar o que está pensando. Não há dinheiro no mundo que possa fazê-lo abandonar o prazer de acalmar a aflição dos transeuntes que mal tem tempo de pensar. Geralmente é na nona ou décima abanada negativa do violinista que os ricos perdem a paciência e partem para as ameaças vãs. Em resposta a isso, o violinista faz o que sempre faz: continua tocando.

Já que não é possível tirar o mítico músico de seu palco natural, muitos tentaram gravar sua genialidade e transmiti-la pelo mundo. Certa vez uma equipe inteira de gravação se instalou na calçada e gravou o violinista em um dos seus momentos de máxima concentração e paixão. O arco voava em suas mãos, e o som parecia a voz das ninfas sussurrando por entre as árvores. Estranhamente, o que foi gravado naquele dia nunca foi lançado. Até hoje, os estudiosos não chegam a um consenso com relação ao que houve com a gravação. Alguns dizem que o diretor se comoveu tanto que resolveu guardar a faixa para si mesmo. Outros dizem que ela simplesmente estragou inexplicavelmente, uma clara demonstração dos poderes sobrenaturais do violinista. Mas o fato é que o único jeito de conhecer a obra completa desse músico é assistir a sua apresentação diária em frente ao edifício.

No dia em que os andaimes foram retirados, houve uma grande festa de inauguração do novo edifício. O violinista foi convidado para abrir a cerimônia, mas ele desapareceu misteriosamente um dia antes que o convite fosse feito.

Muito se diz sobre o desaparecimento do músico. Alguns juram que ele foi visto em outra cidade, dessa vez com um cachecol diferente, tocando em frente a um edifício diferente. Outros acham que ele finalmente aceitou o convite de um ricaço e voltou para a Europa, mas os entendidos no assunto dizem que ele jamais faria isso. Alguns aceitam que ele simplesmente morreu e está enterrado em uma cova anônima, enquanto outros acham que ele voltará um dia e tocará para sempre até o fim dos tempos. Mas os sábios de verdade só tem certeza de uma coisa: Em resposta a tudo isso, o violinista faria o que sempre fez: continuaria tocando.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Mito do Jornalismo Neutro


Em uma reunião de amigos, no final da noite, depois daquela sexta latinha de cerveja, o cara que se acha entendido de política fica todo filosófico e solta, sempre acompanhado de um palavrão estrategicamente posicionado, uma crítica à mídia nacional (e às vezes internacional, para parecer ainda mais intelectual). É o estopim para que aquilo que era um grupo de amigos em um encontro casual vire um grupo de estudos com os melhores cientistas políticos, sociólogos e professores de universidades presentes. Eles discutem a situação deplorável da mídia, argumentando com números totalmente inventados e citações de origem duvidosa até que a chama se apaga, os experts ficam sonolentos e todos vão pra casa, certos apenas de uma coisa: A mídia não é neutra.

Apesar de nosso grupo de amigos nem tão fictício assim acordar no dia seguinte sem nenhuma lembrança do resultado da discussão que com certeza trouxe uma solução para a crise econômica e a fome mundial, a questão é válida. Existe mídia neutra? Se sim, até que ponto?

A grande certeza é que alguns veículos de mídia são escandalosamente favoráveis a partido A, e vergonhosamente hostis com partido B. Esses são os mais inofensivos. Eles têm manchetes em letras garrafais, quase sempre acompanhados de pontos de exclamação. O remédio é fácil: Simplesmente ignorá-los. Eles claramente não são neutros, algumas vezes até pertencem ao partido A, e o leitor está perfeitamente ciente que, se der atenção a eles, só ouvira maravilhas de fulano e calamidades de beltrano. É o caso de alguns países vivendo ditaduras, nos quais o líder, glorioso líder, é o salvador de uma nação ameaçada pelo imperialismo estrangeiro. A mídia faz de tudo para criar essa imagem de líder perfeito, em alguns casos beirando o ridículo. 

 Outros veículos de mídia não declaram sua preferência, mas omitem notícias e dão destaque a outras, fazendo a cabeça do leitor, espectador ou internauta sem que esse perceba. Esses são mais perigosos. O cidadão com um pouco mais de senso crítico procura um jornal neutro, e encontra esse, com letras convidativas e manchetes nem tão simples e nem tão complexas. Escondidas por trás de uma aparente neutralidade estão crenças políticas, sendo implicitamente colocadas na mente daquele que as ouve. Assim é a mídia de países democráticos, com eleições regulares e rotatividade no poder. Aparentemente neutra, discretamente imparcial.

 O grande problema é o que cidadão mais básico, que assiste jornal só por que está passando na televisão, é influenciado por esse jornalismo nada neutro. E como tudo que passa na televisão tem que ser verdade, esse cidadão acaba acreditando de bom grado, por falta de que acreditar. O ser humano necessita de um vilão e de um mocinho tanto quanto precisa de um governo. A mídia o ensina a antagonizar esse e favorecer outro. Sem senso crítico algum, o cidadão engole a verdade distorcida e acredita piamente nela, levando essa crença para o lugar mais perigoso de todos: As urnas.

O dever primordial da imprensa é informar. O ideal seria transparência total de governos e demais instituições, e se isso acontecesse não haveria necessidade de um jornal dizendo o que está havendo no mundo.  Mas não vivemos nessa utopia, a imprensa existe e é imprescindível para a justiça e para essa frágil forma de governo chamada democracia. Alguns veículos de mídia se esforçam para se manterem neutros, mas sempre há uma notícia que é mais importante que a outra. O principal é a alternância. Um bom veículo de mídia analisa várias visões políticas diferentes, informando de tudo um pouco. Um bom cidadão lê, ouve ou acessa mais de um veículo regularmente. É importante ter duas fontes de informações, mesmo que elas parecem neutras e iguais. Os detalhes são tudo.

E é sempre bom ter uma percepção geral. Uma coisa é um jornal claramente imparcial. Outra é ler vários jornais, todos dizendo, de jeitos diferentes, a mesma coisa. Aí, talvez o problema não seja com a imprensa, mas sim com o governo.

Aí cabe ao cidadão quem xingar em uma discussão com os amigos no fim da noite.