sábado, 28 de maio de 2011

Berço de Ouro

Sam tocou os as últimas notas da música, e o som do piano era suave e doce aos seus ouvidos. As teclas pareciam feitas de seda, e o banco no qual sentava enquanto fazia a mágica acontecer, feito do mais fino veludo. Mas ele podia ouvir algo mais. Talvez o som da própria alma do piano, cantando para ele, qual faria uma ninfa, ou uma sereia. E mesmo quando ele se levantava no fim de cada número e agradecia ao público em júbilo, ele acreditava poder ouvir o piano aplaudindo também.

Pouco importava. A vida de Sam nunca fora melhor. Ele conseguira esse número estável em um bar de qualidade devido às conexões de seu pai, um poderoso empresário do mundo do entretenimento. As más-línguas diziam que era impossível que uma dúzia de bares, restaurantes e casas noturnas gerassem uma renda tão impressionante, e sussurravam que o grosso do dinheiro vinha das ligações com a máfia, mas isso também pouco importava. Sam sempre lotava a casa, e era sempre aplaudido ao máximo.

Antes não era tão fácil. Lógico, ele tinha dinheiro. Era só pedir, e seu pai arranjaria. O piano de cauda branco fora um presente dele. Mas Sam não brilhava. Era só mais um pianista desconhecido. Agora... Agora ele tinha um empresário, duas apresentações por semana, e agora já se falava em contrato com uma gravadora! Perfeito.

Sam saiu acenando para seu público que aplaudia. Ele desceu para o camarim embaixo do palco, para descansar um pouco antes de sair para beber algo e receber milhões de congratulações de ricos entusiasmados (e entediados) que viam nessas noites de música a única válvula de escape de seu mundo perfeito. Sam era alto e um tanto quanto fora de forma; Alguns de seus ternos já não o serviam tão bem. Contrastando com sua face oval e suas pernas gorduchas, seus dedos eram longos e firmes. Culpa do piano, dizia seu pai. Ele tinha um cabelo puxado para trás, evidenciando ainda mais sua testa enorme e as sobrancelhas finas, que dava a sua face um ar de juventude, apesar dos seus trinta anos. Não era um homem bonito, mas também não era feio.

Ele ainda sorria quando entrou no camarim, e para sua surpresa, encontrou seu empresário, em pé no meio da sala desarrumada, imponente na sua jaqueta de couro, mas também terrivelmente sério.

Richard, o empresário de Sam, já era experiente. Conseguira dezenas de contratos com bandas e artistas em ascensão nos seus anos de ouro, e agora era exclusivamente empresário de Sam. Ele era um homem sério por natureza, lacônico e reservado, mas um ótimo amigo. Tinha por volta de cinqüenta ou sessenta anos; Era ainda mais alto que Sam, mas era magro e tinha um rosto reto e amedrontador, com lábios finos e quase sempre crispados. Esses lábios raramente sorriam; Toda a face de Richard transmitia melancolia. Seus olhos azuis estavam sempre cansados; Faltava-lhes a severidade dos lábios. Suas mãos eram esqueléticas e contraídas, e seu cabelo quase todo se fora. Não, não era um homem particularmente alegre. Mas hoje ele estava especialmente sério. Toda sua fisionomia transmitia gravidade, e era impossível não notar, mesmo com todos os entorpecentes aplausos que Sam ainda desfrutava.

O sorriso se esvaiu da face de Sam.

-Ah, Richard... Foi uma ótima noite, esta... Está tudo bem?

Richard levantou seus olhos cansados e apenas disse:

-Espero que a tenha aproveitado... Porque acabou.

-Acabou? Como assim acabou?

-Seu pai está afundando na merda, Sam, e ele está levando tudo o que ele pode junto com ele. Já faz um mês que ele não tem mais lucro de lugar nenhum, só prejuízos. Ele está quebrado, falido. E isso faz de você um homem desempregado. Ah, e se despeça de seu piano. Ele foi vendido por metade do valor em uma tentativa desesperada de manter esse lugar funcionando.

Foi como um soco. Sam quase caiu para trás.

-Falido?? Mas... Mas eu estava...

-Não importa. – Richard desviou o olhar, e fitou o vazio. – acabou.

Sam parou de pensar. Ele foi tomado por um ódio profundo, e antes que pudesse evitar, ele agarrou uma garrafa de champanhe, presente pela apresentação, e a quebrou na cabeça do empresário.

O homem caiu como uma rocha no chão. O champanhe caro se esparramou pelo carpete, se misturando com o sangue que escorria lentamente da cabeça do empresário inconsciente.

Sam entrou em pânico. Ele correu para fora do camarim, gritou por ajuda e voltou, pensando em uma história que se encaixasse. Quando entrou no camarim, ele viu que Richard se revirara no chão, e agora olhava fixamente para Sam. Seus olhos cansados estavam arregalados, e seus lábios crispados sussurravam...

"Assassino..."

Então sua cabeça pendeu para trás, ele perdeu os sentidos novamente.

Um garçom apareceu um segundo depois, e alguns minutos depois uma ambulância e a polícia, mas Sam respondeu as perguntas automaticamente. Disse que quando chegou o empresário já estava no chão; Fez um ótimo papel de perplexidade, porém sua perplexidade vinha do sussurro perturbador... Ele tinha certeza que o empresário sabia que ele tentara matá-lo. E se ele sobrevivesse, Sam não estaria somente falido; Estaria também preso.

Ele voltou para sua casa, ainda mecanicamente. Acordou no dia seguinte e foi direto para o hospital, visitar o empresário. Seu quarto estava sendo guardado por um policial, que confirmou que Richard tinha sobrevivido, mas não tinha recobrado a consciência.

Seria fácil, Richard pensou. Um travesseiro. Sim, um travesseiro, e alguns minutos a sós com Richard, e ele deixaria de ser um problema. Simples.

Ele convenceu o policial a deixá-lo a sós com o empresário facilmente. O oficial nem contestou. Fácil.

O quarto era pequeno, com duas camas separadas por uma grossa cortina verde-água. Richard estava na primeira cama, com os aparelhos piscando e apitando ao seu lado. Sam se aproximou lentamente. O empresário respirava pesadamente, com os olhos fechados e relaxados. Só assim para que Richard relaxasse, pensou Sam. Ele pegou um dos travesseiros. Ele o segurou logo acima da cabeça cheia de bandagens de Richard...

Então, subitamente, o empresário abriu os olhos.

-Te peguei.

Sam pulou para trás, derrubando os aparelhos, enquanto o empresário dizia:

-Eu acordei ontem no meio da noite, Sam. –seus olhos brilhavam com uma malícia e crueldade profunda. – Eu sabia que você viria tentar terminar o serviço. Por isso o policial lá fora mentiu, para que nós o pegássemos em flagrante.

Sam sussurrou:

-Nós...?

De repente, e cortina verde-água se abriu, e três policias armados pularam para cima de Sam e o algemaram, enquanto o empresário ria. Ele gargalhava, de um jeito que Sam nunca o vira fazer. Sam foi arrastado para fora do quarto, enquanto as risadas macabras enchiam seus ouvidos.


 


 

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Decoração

A avenida movimentada e barulhenta se encaixava bem no perfil da cidade grande. Carros passavam incessantemente, e o som do trânsito era onipresente. A cidade respirava poluição, e em seu turbilhão de vidas podiam-se encontrar sofrimentos, decepções, alegrias e realizações humanas que nela habitavam. Sim, a cidade era uma coisa, estava viva, e a grande avenida era sua artéria principal. Ou assim o parecia para Mary.

Mary nunca tivera uma vida interessante. Cresceu e foi educada em uma cidade pequena, onde qualquer deslize, qualquer paixonite e qualquer segredo era assunto público. Especialmente para ela, filha do médico. Ela via todas as suas amigas, com vidas tão mais interessantes, indo a festas, e ela em casa estudando, aprendendo piano, recitando a missa. Por quê? Por que ela era a filha do médico, claro.

E o que se esperar da filha do médico que não um marido médico? Mary foi apresentada a Harry por seu próprio pai, provavelmente já maquinando o casamento dos dois. Foi uma cerimônia tradicional, com uma lua-de-mel tradicional. Apesar da infertilidade de Harry, ela sempre se esforçou em ser uma esposa compreensiva e, acima de tudo, respeitosa. Mas eles se amavam, ou assim Mary imaginava. Ela era feliz, o tanto quanto uma mulher pode ser quando tudo que ela é na vida é ser esposa do médico.

Por isso foi um choque quando Harry lhe disse que iriam mudar. Sair do interior, ir pra cidade grande. Oportunidade de trabalho, dissera Harry. Ela nunca estivera fora do estado antes, e agora isso! Mas Mary se acostumou com a cidade grande facilmente, chegando a apreciar sua sinfonia caótica e imprevisível. Ela acabou por tornar a cidade grande uma cidade pequena. Tinha uma rotina tão restrita que acabou criando sua própria cidade, que consistia do supermercado, uma ocasional ida às compras, aulas de piano nas quartas, francês nas sextas. E sempre a tempo de voltar pra casa e deixar o jantar pronto. Então ela conversaria com Harry sobre seu dia, e ele contaria uma história sobre um paciente problemático ou uma cirurgia complicada. Então ela iria para cama cedo, e recomeçaria tudo de novo. Uma rotina comum, porém inflexível, e Mary não conhecia mais nada além dela. Ela gostava da idéia de que, quando estivesse longe do marido, ele sempre saberia onde ela estava. Sempre. Quebrar a rotina era algo impensável, um delito inadmissível. Não que Harry notasse quando ela o fazia, mas ela se sentia horrível, como se mentisse para o marido que nem sequer sabia da importância de tal rotina.

Portanto, qual sua surpresa quando, na plataforma do metrô, viu Harry a alguns metros dela!

No início, ela se encheu de felicidade. Ela gritou e acenou para ele, mas quando ele se virou, ela silenciou imediatamente, e permaneceu quieta, mãos nas sacolas, invisível. E o fez porque viu algo na face do marido que jamais vira antes. Era medo, mas um medo de momento, como se ele estivesse regado de adrenalina. Ao ouvir seu nome, Harry se virou imediatamente, como um cão faz quando ouve alguém rondando a casa. Harry sondou a multidão, exatamente como um cão faria, diversas vezes, irritadiço e assustado. E isso aterrorizou Mary.

Primeiro, porque ela nunca, jamais via Harry naquela estação. E como sua rotina era inflexível, Mary teve certeza de que algo de errado. Algo terrivelmente errado. E a reação frenética de Harry apenas confirmou esse temor. E quando viu seu marido entrar em um vagão diferente do dela, a mulher nem pensou. Seguiu-o instantaneamente, sem pensar. Seus olhos corriam aflitos pelo vagão, e quando encontraram o marido, também aflito, aquietaram-se. Ela o seguiu por mais algumas estações, e finalmente ele saltou. Mary seguiu-o, escondida pela multidão. Ela o viu entrar em um bar barato e desconhecido, e resistiu ao impulso de entrar atrás dele e perguntar o que havia de errado. Ao invés disso, ela teve outra idéia. Acenou para um garçom, e pediu uma mesa do lado de fora, logo em frente para a vitrine enorme do bar. De lá ela podia ver claramente seu marido, que olhava freneticamente para o relógio, e depois para o cardápio, e depois para o relógio de novo. Então, por fim, suas feições mudaram. Um alívio súbito substituiu toda a aflição, e Harry relaxou instantaneamente. Mary percebeu a razão, e ela congelou. Ficou parada, como uma estátua, escondida atrás do cardápio barato do bar. Pois o que deixara Harry tão aliviado fora a chegada de uma mulher!

Mary estremeceu. Ela não conhecia a mulher, mas sabia que era bonita; Estava vestida em um terno e usava óculos modernos, que realçavam a suavidade de sua face. Ela era alta, e sabia andar de salto. Ela sentou-se à mesa de Harry, e eles conversaram por meia hora, e Mary podia jurar que nunca tinha visto seu marido tão feliz. Uma amante! Mary sentiu suas entranhas se revoltarem, e achou que ia vomitar. Sua lealdade e seu carinho pelo marido subitamente se tornaram ódio. Ódio mortal, e a facilidade com que isso aconteceu assustou a própria Mary. Mas a Mary do interior sumira, e em seu lugar havia ódio puro. Ela ficou remoendo seu ódio até que o profano casal saísse do bar, e então aquela Mary cheia de ódio levantou-se e seguiu-os, com a cautela de um soldado atravessando um campo de batalha. Ela os seguiu o dia inteiro, e esse dia fora uma tortura. Eles passearam pelo centro o dia inteiro, entrando e saindo de lojas caríssimas. Os pensamentos de Mary então se tornaram violentos. Ela fantasiou segui-los até um motel, onde ela entraria no quarto e o redecoraria com o sangue dos dois...

Ela então pensou, ponderou a idéia. Era a única coisa razoável a se fazer. Nada mais.

Ela então voltou para o apartamento, e vasculhou as coisas de Harry até que encontrou sua arma. Um revólver pequeno e leve, discreto, mas letal. Ela então sentou na cama e esperou. Não se moveu o resto da tarde. Ela mantinha o frio objeto de metal na mão o tempo todo. Horas passaram, e por fim, seu marido chegou. Ela levantou-se lentamente enquanto ouvia a ladainha de Harry sobre um dia difícil na clínica, e seu ódio só aumentava ao ouvir as mentiras. Então, sem pensar, fitando o vazio, ela saiu do quarto e apontou a arma para seu marido. Ele não percebeu no primeiro momento; Estava muito ocupado procurando nos bolsos do casaco algo, até que tirou de um deles um pequeno envelope. Então ele viu a arma, e antes que dissesse uma palavra, Mary atirou. Três vezes, e acertou todas as três.

Assim, sem rodeios. Quando viu que Harry percebia o objeto de metal apontado para ele, ela atirou. E, ainda sem emoção alguma tirou da mão dele o envelope, enquanto a vida se esvaía do homem. Ela o abriu e leu. Quando terminou ela deixou a arma cair, sem sentir o peso dela na sua mão. E riu. Sentou-se calmamente, releu o envelope várias vezes e riu mais ainda, enquanto observava seu marido se arrastar pelo chão, tentando alcançar algo que não estava a seu alcance.

O envelope dizia:

"Querida Mary;

Ainda nesta semana um caminhão virá entregar móveis novos e decorar toda a casa. Eu passei uma tarde inteira com a decoradora escolhendo os móveis, e, acredite, tive que passar pela mesma estação que você sempre pega de manhã! Espero que tenha conseguido manter segredo. É meu presente de aniversário para você, meu amor.

Feliz Aniversário

Harry"

Ela riu até que o homem ensangüentado aos seus pés parasse de se mover, e então o riso se transformou em um choro.

domingo, 24 de abril de 2011

Angel Dance

Desde antes do Zeppelin, Robert Plant sempre gostou de aparecer. Fugiu de casa quando seu pai o obrigou que cortasse o cabelo. Quando adolescente, apanhava de meninos cujas namoradas enlouqueciam ao vê-lo cantar. Mas isso só inflava mais o seu ego. Afinal, que culpa tinha se era tão talentoso?

No Zeppelin, era a mesma coisa. Plant era o rosto da banda. Quando se dizia Led Zeppelin, se pensava no cantor loiro com cabelo encaracolado rebolando no palco, de peito aberto e excitado consigo mesmo (várias fotos de shows mostram Plant com uma infame ereção durante suas performances mais marcantes). Mas não era suficiente, pois embora os fãs não soubessem, a mídia e todos próximos da banda sabiam: O Zeppelin era de Page, e de ninguém mais.

Plant se sentia inferior. Um frase que entrou para os anais do Rock foi quando Plant gritou no em um hotel de Los Angeles "Eu sou um deus dourado!" (rumores dizem que ele repetiu isso no show, mais tarde, mas nada foi provado). Apesar de não saber, Page era um amigo e um rival. Quando perguntado por um jornalista sobre a obra-prima do Led Zeppelin Stairway to Heaven, Plant interrompeu o jornalista e disse: "Não, Stairway não. Kashmir é." Detalhe: Stairway to Heaven foi composta por Page, e Kashmir, por Plant.

Hoje, mais velho, menos andrógino e vestindo uma camisa, mal poderia se dizer que aquele cantor de country não era texano, muito menos que fundou o Hard Rock e fez parte de uma das bandas mais influentes dos últimos cinqüenta anos. Hoje, em contraste com um Page que mal sai de casa, Robert Plant é um nome importante na música country, faz shows pelos Estados Unidos, vende discos e compõe baladas dignas de Hank Williams. Hoje, Robert Plant reluta em falar do Zeppelin. Seria fácil especular por quê, mas julgar rápido é fácil e criticar é mais fácil ainda. O que interessa, e o que o faz realmente superior à Page hoje, é que Plant seguiu em frente. Lançou novos álbuns. Do mesmo jeito que Clapton fez com o Blues, Plant se lançou profundamente no country (Perdoem-me, Claptonmaníacos, se comparo o Deus da Guitarra com Robert Plant) e seguiu em frente. Page jamais superou a perda do Zeppelin, e seu trabalho posterior foi apenas sobre o Led e nada mais.

Mas estamos falando de Plant. Ele lançou vários álbuns, principalmente country, e de muita qualidade, porém aos quais nem eu dei muita atenção, parte por causa do meu preconceito com country e parte... Bom, era Robert Plant tentando ser caipira. Que ridículo. Porém mais uma vez meu preconceito se mostra errado, pois o último trabalho de Plant, o álbum "Band of Joy", é capaz de mudar todo o conceito de country. Com uma arte de álbum um tanto quanto confusa, "Band of Joy" é uma viagem (dessa vez, no sentido literal) de Plant pelo meio-oeste americano e pelo sul, redescobrindo o country americano. As faixas são claramente country, mas flertam com outros gêneros de jeitos nunca vistos. Em dueto com Alisson Krauss em algumas músicas, Plant passa do country dançante para o melancólico (e eu nem sabia se isso era possível) com sutileza, com faixas pesadas como "Silver Rider" e "Monkey", mais leves como "Cindy, I'll Marry You Someday" e inclusive um flerte com o gospel em "Satan Your Kingdom Must Come Down".

Um álbum original, apesar do que parece, e muito bom de escutar. Longe de redimir Plant pelos seus atos pós-Zeppelin, mas é importante separar o homem da obra. Podemos dizer que, sem o narcisismo, Robert Plant é um ótimo artista.





"And They'll laugh up and down the hall

Don't go shout when you hear them fall"

Angel Dance

Robert Plant

Band of Joy

Es Paranza (Decca Records)

sábado, 9 de abril de 2011

Heroes

Ao longo da história da humanidade, muitas pessoas incomuns surgiram. Pessoas com coragem, determinação ou capacidade de liderança muito acima do normal. Alguns dessas pessoas incomuns usaram suas capacidades com más intenções... Mas muitos deles contribuíram para arte e para o desenvolvimento do ser humano e da humanidade em geral.

Esses heróis mudaram o mundo, de um jeito ou de outro, e muitos heróis surgem em tempos de crise. De volta aos EUA dos anos 60, quando Martin Luther King Jr. lutava pelos direitos dos negros extremamente discriminados na sociedade norte-americana, um treinador branco de basquete universitário resolve se levantar contra a desigualdade e faz o que nenhum treinador jamais fez: Põe sete negros no time.

Essa história real foi imortalizada no filme "Estrada para a Glória" (Glory Road em inglês). Situado em uma faculdade texana, um estado extremamente racista até os dias de hoje, o filme conta a história de Don Haskins, técnico branco de basquete que organiza um time com negros. Saindo à procura de talentos, Haskins convida tanto negros quanto brancos para o time Texas Western, e os ensina a jogar como um time. A idéia enfrenta oposição desde o começo, quando o principal patrocinador dos Miners (apelido do Texas Western – não me pergunte por quê) pergunta à Haskins porque há tantos "crioulos" no time. Durante os meses iniciais de treinamento, Haskins começa a traçar um perfil de cada jogador, e até corta alguns da escalação... Ele tenta mostrar aos negros o basquete profissional e afastá-los do basquete de rua, o qual eles estão acostumados.

Quando o Texas Western finalmente entra em campo, em casa, são aplaudidos e encorajados. Eles vencem o primeiro jogo, e fazem uma temporada fantástica, viajando pelo país, brancos e negros, todos ali pelo mesmo motivo: o basquete. Até que começam a ganhar fama e a serem notados pela sociedade americana, e em conseqüência...

Os primeiros atos de racismo acontecem quando um dos jogadores é espancado em uma das cidades em que jogam. Depois o técnico começa a receber ameaças na sua própria casa, ameaçando seus filhos e sua mulher, que por sua vez também é isolada das festas sociais do Texas por causa de seu marido. Por fim, no auge do sucesso, o racismo acompanha, e uma tragédia acomete o time...

O filme é muito emocionante, e também um tanto quanto cômico, mas principalmente chocante. Entrar em contato com um racismo tão forte é difícil, e ter que encarar pessoas que desprezam e julgam outras pessoas apenas pela cor da sua pele também não é fácil. No fim, o preconceito não é apenas sobre raças. É sobre origens, de onde seu sangue vem, quem seus ancestrais foram. E existem até hoje pessoas dispostas a julgar, condenar e matar pelo simples motivo de terem sido educados para acreditar em uma raça superior e outra inferior. E tal preconceito é encorajado pela mídia, e até abusado em alguns casos. De tanto ouvirem que são inferiores, os afro-descendentes acabam acreditando nisso e acabam usando essa alienação para justificar qualquer ato. Porém, mais importante do que ver uma manchete no jornal e sussurrar "que mundo louco esse em que vivemos" é se solidarizar e dedicar um pouco do seu tempo em assistir filmes como esse e pensar nesses heróis da humanidade, que surgem em tempos de crise e tão rapidamente quanto surgiram, desaparecem como poeira no vento. Mas não antes de ter deixado sua marca nesse mundo louco em que vivemos. Não antes de terem sido consagrados heróis.


 


 

"We can be heroes, just for one day

We can be us, just for one day."

Heroes

David Bowie

Heroes

Virgin Records

sábado, 2 de abril de 2011

Highway to Hell

A diversão de assistir ou ler histórias policiais é, para mim, tentar descobrir a solução antes do protagonista. Nas melhores histórias, você erra e se surpreende com a solução, mas durante a história você torce pelo protagonista. Histórias bem ao estilo Sherlock Holmes, em que você se debruça sobre o livro e o devora como se estivesse assistindo um filme de ação. Na maioria das vezes, o protagonista é o mocinho, e confronta os bandidos e por fim acaba vencendo. Porém, mais interessante que as histórias onde o bem sempre triunfa sobre o mal, são aquelas em que isso nem sempre é verdade. Histórias de anti-heróis atraem tanto ou mais do que aquelas em que o mocinho sempre vence no final. Como toda boa história, você se pega torcendo pelo protagonista. Porém, em histórias de anti-heróis, você acaba querendo que o mal triunfe...

Mas o que é o mal? Apenas uma questão de perspectiva? A estrada para o inferno está cheio de boas intenções. No fundo, no fundo, os "vilões" na verdade tem um motivo nobre. A diferença é que eles não medem esforços para alcançá-los e acabam se utilizando de meios não muito éticos ou humanos. Mas tais fins, que acabam justificando os meios, são sempre muito nobres.

É mais ou menos nessa perspectiva que se baseia o anime (animação japonesa) "Death Note". Em inglês, Death Note significa caderno da morte, embora o caderno em si seja apenas um instrumento...

A história se passa nos dias atuais, no Japão. Yagami Raito (As traduções ocidentais mudam seu nome para "Light" Yagami) é um estudante brilhante que tem uma vida perfeita, mas é entediado. Ele acredita que o mundo esteja podre, porém não tem poder para fazer nada a respeito. Isso muda drasticamente quando, saindo de sua escola, ele encontra no chão um caderno negro, com os dizeres "Death Note" na capa. É um caderno em branco como qualquer outro, a não ser pela sua primeira página. Nela, estão instruções, que explicam que o humano que tiver seu nome escrito no caderno... Morrerá.

Com uma série de regras diretas, o Death Note se prova ser real, e não só mata, mas também permite definir a causa da morte e as ações que a vítima executará antes de morrer. Porém, nada vem de graça. Ao final de alguns dias com o Death Note, Raito recebe a visita do dono do caderno. Ele pertence a um Shinigami, um deus da morte da mitologia japonesa. Esse Shinigami, chamado Ryuku, diz que deixou seu caderno cair no mundo humano porque estava... Exatamente como Raito... Entediado.

A partir daí, vemos o verdadeiro significado da expressão "poder corrompe". Raito, antes um estudante simples, decide usar o caderno para limpar o mundo do mal, escrevendo nele nomes de criminosos. Seu plano, cuidadosamente traçado, prevê que, ao final de seu trabalho, ele criará um novo mundo no qual ele será a justiça absoluta, o juiz de toda a terra... Um Deus.

Porém suas ações não passam despercebidas, e o melhor detetive do mundo inteiro, conhecido apenas como "L", se compromete a pegar o assim apelidado pela mídia "Kira". Porém ele terá se esforçar mais do que o normal para pegar um criminoso que não deixa vestígios e não precisa de nada mais que o nome e o rosto para matar...

A história se desenrola como um conto policial dos melhores, com jogadas de mestre de ambos os lados. O anime é emocionante de assistir, e mais ainda de tentar prever os movimentos de cada um dos lados... Mas não se engane: Yagami Raito é inescrupuloso e cruel, e não medirá esforços para atingir seu novo mundo. Desde matar pessoas inocentes a usar as pessoas que mais ama, nada será exagero para que Kira crie seu novo mundo. Porém o processo o mudará mais do que ele imagina...

Escrito por Tsugumi Oba e ilustrado por Takeshi Obata, Death Note, mangá que virou anime, é essencial para quem gosta de histórias de suspense e policiais.


 


 


 

"I'm on the highway to hell"

Highway to Hell

AC/DC

Highway to Hell

Columbia Records


 

terça-feira, 29 de março de 2011

Dazed and Confused

O imaginário humano não tem limites. Tanto o antigo quanto o atual. O universo Tolkeniano é tão ou mais rico que a mitologia grega. Batalhas épicas, criaturas fantásticas e histórias que refletem os conflitos humanos. Esse tipo de história ficou muito popular nas décadas de 70, 80 e 90. Começou com Tolkien e C.S. Lewis, e depois vieram muitos outros seguindo o mesmo gênero. Geralmente o mundo onde a história se ambienta é um mundo medieval, com cavaleiros em armaduras brilhantes, donzelas a serem salvas e tarefas quase impossíveis cumpridas pelos heróis mais improváveis. Realmente, dúzias desse tipo de obras (com suas próprias variações que as tornam únicas, como, por exemplo, o steampunk) apareceram por aí nos últimos anos. Transformadas em filmes, jogos de tabuleiro e videogames, essas obras são especiais e muito diferenciadas, mas olhando a grosso modo, são o mesmo gênero. E para todo status quo, há alguém que o contesta e que nada contra a corrente.

Bom, quando os livros de fantasia são o status quo, surge seu maior ridicularizador: Terry Pratchett.

Terry Pratchett é um inglês que, farto das obras de fantasia, decide criar sua própria. Porém ela é totalmente satírica, carregado de críticas sociais e o melhor do... Incomum humor inglês.

Ele publica então "A Cor da Magia", um livro sobre um mago fracassado que é obcecado pela idéia de que, na sua morte, o próprio Morte terá que vir buscá-lo. Estranho? Essa história se passa no mundo de Discworld, um mundo plano carregado por quatro elefantes gigantescos em cima do casco de uma tartaruga mais gigantesca nadando por um oceano ainda mais gigantesco (Na verdade Pratchett pegou essa idéia emprestada da mitologia hindu). Mais estranho?

Discworld é regido por um sem-número de deuses jogando xadrez com outros deuses, onde as peças são os seres humanos. Esses deuses comandam criaturas míticas como o Morte (sim, no masculino mesmo) e brincam com a vida dos homens. Esse primeiro livro da série Discworld fala sobre Rincewind, um mago reprovado na escola de magia e vive de truques baratos para sobreviver na corrupta Ankh-Morpork, uma crítica social das mais pesadas. Em Ankh-Morpork, por exemplo, existem guildas regulamentadas como a dos ladrões e a dos assassinos, que tem representantes no governo, e um sistema social estranhamente parecido com o capitalista selvagem... A vida de Rincewind muda quando uma oportunidade surge: um turista vindo de uma terra riquíssima chega à Ankh-Morpork, querendo conhecer as sutilezas de uma terra tão bárbara, por um acaso Rincewind acaba sendo seu guia. As situações que os dois vão encontrar são engraçadíssimas, até porque enquanto o turista DuasFlor (sério, esse é o nome dele), um completo idiota, acha tudo muito divertido e inclusive paga pela diversão de ser assaltado, participar de uma briga de bar e ser raptado por dragões, Rincewind é um covarde do mais alto nível.

Apesar de maravilhoso, o livro pode parecer confuso para aqueles não-familiarizados com as obras de fantasia mais tradicionais, como "O Senhor dos Anéis" e "Crônicas de Nárnia" entre outros. Mas é impossível não se divertir com as aventuras de uma dupla tão inusitada.

Mas talvez o seu melhor livro não seja tão satírico assim. No começo, Discworld era para ser apenas uma brincadeira, uma paródia com as obras de fantasia que faziam tanto sucesso no final dos anos 80. Mas Terry Pratchett conquistou o público, e Discworld virou uma série com sua própria mitologia, exatamente como a de Tolkien. Sem nunca deixar de lado a sátira e o humor inglês, Pratchett foi se aprofundando. Uma das suas últimas obras é discutivelmente a melhor: "O Fabuloso Maurício e seus Roedores Letrados".

A história varia mais para o suspense do que para a comédia. Maurício é um gato, que por meio de um... Acidente adquire intelecto humano. Mas ele não é o único. Ele encontra um grupo de ratos também com inteligência humana. Esses ratos se submetem ao seu comando, bem como um flautista ingênuo, e assim Maurício e seus roedores letrados passam de cidade em cidade prometendo curar a epidemia de ratos ali presente. O flautista toca algumas notas, e centenas de ratos imediatamente saem de seus esconderijos e seguem o flautista para fora da cidade. A verdade é que os ratos com mais inteligência convencem os ratos comuns a infestar a cidade, bem como os convencem a sair quando ouvirem uma flauta... Assim Maurício enriquece. A história por si já é interessante, pois os ratos com inteligência humana também tem características humanas... Eles se sentem solitários, amorosos, rancorosos, tem ambição, ganância e inclusive uma religião! Mas Maurício os mantém (e ao flautista) controlados com mentiras, mas alguns ratos são mais difíceis de convencer do que outros...

Os cinco primeiros ratos inteligentes, e os seguidores de Maurício, são: Perigoso Feijão, um ratinho frágil mas muito inteligente, sempre envolvido com questões existenciais das mais profundas. Pêssego, uma rata com uma capacidade de argumentação e liderança de rivalizar com os maiores oradores e políticos. Bronzeado Intenso, um rato durão, chefe do Esquadrão Anti-Ratoeiras e especialista em desarmá-las. Sardinhas, um rato dançarino e brincalhão, que encara tudo com diversão. E por último o chefe, Fiambre Suíno, o mais velho dos ratos, e o mais teimoso.

A história começa quando eles decidem fazer seu último trabalho na cidade de Panqueca Estragada. Mas coisas estranhas estão acontecendo na cidade. Há uma epidemia de ratos real, e dois caçadores de ratos contratados mexeram com poderes mais antigos e mais poderosos do que imaginam para lidar com ela...

O livro é muito divertido por mexer com o surreal e também com características humanas refletidas nos ratos. A história toma rumos muito macabros com o passar do tempo, e o jogo que Pratchett faz com os capítulos, intercalando as histórias dos ratos com a de Maurício e do flautista é digno do mestre que ele é.

Pratchett é um escritor muito engraçado e relaxante de se ler, com uma leitura mais leve e que flui mais facilmente... E ainda assim com um toque de suspense na medida certa. Vale à pena conhecer. O humor ácido de Pratchett o deixará tonto e confuso.


 


 


 

"Been dazed and confused for so long (…)"

Dazed and Confused

Led Zeppelin

Led Zeppelin I

Atlantic Records


 

sábado, 26 de março de 2011

Let it Be

Algumas formas de entretenimento nos levam à refletir mais do que entretêm(Ou talvez a reflexão seja uma forma de entretenimento?). A maioria dos personagens que nos são apresentados são muito semelhantes a seres humanos, até porque a única base na qual podemos nos apoiar ao inventar um personagem conhecemos seja a humana. O que nos leva a apreciar tanto uma obra, o que nos leva a gostar tanto de uma série, de um filme ou de um livro é porque nos identificamos com seus personagens. No nosso íntimo, nos reconhecemos nos personagens, e embora por vezes os desafios que tais personagens enfrentem estejam além da nossa rotina, as atitudes que eles tomam nos refletem. Caso seja uma atitude egoísta, você a identifica em você mesmo. E assim, a série nos faz acompanhá-la rigorosamente, sempre esperando ver determinado personagem em ação.

Em um livro, uma das coisas que mais me irritavam nos escritores era o fato de que eles dividam o livro em várias estórias interligadas. Obviamente, a estória principal era infinitamente melhor que as outras, mas as estórias se revezavam em capítulos. Um capítulo sobre tal personagem, o outro sobre outra, e assim por diante. Mas me irritava o fato de o escritor me forçar a ler um capítulo que parecia insuportável só para encher páginas. Então, ao me aproximar do final do livro, eu entendo o que os escritores estão fazendo. Eles estão prendendo minha atenção por uma estória aparentemente irrelevante para depois revelar algo que só é entendido caso você tenha lido os capítulos irrelevantes. E por isso eu me sentia aliviado, ao perceber que valera à pena passar por todos aqueles capítulos insuportáveis afinal. Caso eu os pulasse, como me sentia tentado a fazer, jamais entenderia a história completamente.

Porém ao ler esse mesmo livro alguns anos depois, eu percebo que é mais do que isso. O escritor tenta, através desse pequeno joguinho de capítulos, nos fazer apreciar a obra como um todo, e não apenas um personagem. E mesmo os capítulos irrelevantes trouxeram alguma coisa à leitura. O que me leva à pensar...

E se assim for a vida? Quaisquer que sejam as forças escrevendo nossa história, não estariam elas em determinado momento escrevendo um desses capítulos insuportáveis apenas para revelar que, no final, ele fez toda a diferença? Através dessa pequena reflexão me vem à cabeça o sentido da frase "viva cada dia como se fosse o último." Um desses capítulos irrelevantes pode fazer alguma diferença no final... E, apesar da tentação de simplesmente ignorá-lo, no final, a sensação de alívio por não tê-lo feito supera qualquer outra. Por isso, apesar do clichê, viva cada dia como se fosse o último.

Deixe acontecer.

P.S.: O primeiro parágrafo não teve quase nada a ver com o resto do texto. Se ele tivesse vindo depois, você teria tido vontade de pulá-lo?


 

I wake up to the sound of music; Mother Mary comes to me;

Speaking words of wisdom, Let it Be…

(…)

There will be an answer, let it be…

Let it Be

The Beatles

Let it Be

Apple (EMI Records)

terça-feira, 8 de março de 2011

Another Brick in the Wall

Roger Waters já dizia. Temos de ter cuidado, ou nos tornaremos apenas mais um tijolo na parede. Banalizar, viver na rotina, assentir com a cabeça e acreditar em tudo o que lhe dizem. O rock sempre abominou isso. Porém você não precisa ter feito parte do movimento punk do fim da década de 70 para se recusar a ser apenas mais um tijolo na parede. Há muitas outras formas de expressão e crítica social além da música. E algumas tão bem-feitas, tão profundas que você mal poderia afirmar que há uma crítica ali. Mas é preciso ver além. Uma das formas de arte mais interessantes do mundo moderno é a Sétima Arte: O Cinema.

Caso lhe perguntassem qual o maior diretor de todos os tempos, o que você responderia? Martin Scorsese? Alfred Hitchcock? Clint Eastwood, talvez? Mas o que esses diretores têm em comum, além de sua arte? É fácil: São todos norte-americanos.

O cinema foi dominado pelos Estados Unidos desde sua criação na França. As maiores produções, as verdadeiras obras de arte, são em sua maioria norte-americanas. Porém, a Sétima Arte é um bem do mundo, e mesmo os campeões absolutos reconhecem isso, e a prova está na categoria do Oscar específica para tais: Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Portanto, é interessante assistir alguns dos melhores filmes de cada país. A França é conhecida por seus filmes angustiantes, melancólicos e tristes ao extremo. O Brasil, mais recentemente, por suas comédias sobre a vida cotidiana. Porém, mais interessante que explorar território conhecido, é mergulhar de cabeça em um cinema totalmente desconhecido: O Japonês.

Pode parecer piada, mas pare para pensar: O que você conhece que vem do Japão? Vamos começar pelo básico: A culinária; alguns costumes, como o de tirar o sapato dentro de casa; Os mangás e animes; Mas... O Cinema Japonês?

Sim, e saiba que um dos melhores diretores vivos é japonês. Autor de dezenas de filmes de animação e ganhador de um Oscar de Melhor Filme de Animação, Hayao Miyazaki é diretor, pintor e desenhista, além de um artista fantástico. Assistir a um de seus filmes é uma experiência inesquecível. O que a princípio parece um filme infantil, logo se mostra discutindo questões adultas disfarçadas de conflitos infantis. Principalmente porque algumas questões da nossa infância nunca desaparecem. Elas só mudam de forma. Miyazaki também nos leva a enfrentar coisas que paramos de nos perguntar quando crescemos. "O que é a morte?" ou "Porque as pessoas morrem?" são alguns exemplos. A maioria dos filmes de Miyazaki mostra a passagem da infância para a adolescência ou da adolescência para a idade adulta.

Infelizmente, a maioria dos filmes mais antigos de Miyazaki não fez muito sucesso fora do Japão, e quase nenhum no Brasil, por isso é muito difícil encontrar todos os filmes dele. Mas caso você tenha paciência em procurar na internet ou caso você entenda bem inglês, é possível encontrar algumas das obras mais antigas. Porém, seus melhores filmes fizeram muito sucesso, e esses não há dificuldade em encontrar.

Bom, então você concordou em conhecer um pouco mais desse Raio qualquer coisa. O que assistir primeiro?

Um dos filmes que mostra bem a personalidade do diretor e uma boa escolha para decidir se você vai se aprofundar no fantástico mundo de Miyazaki ou se vai pular fora é "O Castelo Animado" (Howl's Moving Castle em inglês, e uma adaptação de Miyazaki de um livro de mesmo nome). A história fala de uma jovem vendedora de chapéus chamada Sophie com uma vida não muito interessante vivendo em um país fictício (que lembra a Europa da época da revolução industrial) em guerra. Por um acaso do destino, ela acaba envolvida em uma perseguição um tanto quanto diferente das perseguições de filmes americanos, e naquela mesma noite, uma senhora vai procurá-la, revelando ser a temida Bruxa das Terras Desoladas, e a lança uma maldição que a deixa sessenta anos mais velha. Com sua nova idade, ela abandona tudo o que conhece e, vagando pelas montanhas das Terras Desoladas procurando a Bruxa, ela encontra um Castelo Ambulante e é acolhida lá. É um filme que tem um poder de te cativar rapidamente.

Se você gostou e resolveu continuar, o próximo da lista é o melhor de todos, a obra-prima de Miyazaki e aquele que ganhou um Oscar: A Viagem de Chihiro (Spirited Away em inglês). Chihiro, Uma menina mimada de dez anos que se mudou da cidade onde tinha amigos por causa do emprego do pai visita com seus pais (e contra a sua vontade) um circo antigo e abandonado. Porém, não tão abandonado assim, pois há uma barraca sem ninguém tomando conta cheia de comida da melhor qualidade. O pai e a mãe de Chihiro se acabam na comida, e a menina, de mau humor, se recusa a comer. Porém, quando anoitece, Chihiro descobre que o circo na verdade é uma cidade habitada por espíritos que toda noite saem de suas casas para visitar a gigantesca casa de banhos da bruxa Yubaba. Ela corre para avisar os pais, porém é tarde. Eles foram transformados em porcos!

A partir daí a aventura se desenrola e Chihiro tem que aprender a conviver no estranho mundo da Casa de Banhos para espíritos, com a cruel bruxa Yubaba, o rabugento Kamaji, a determinada Lin e o misterioso Haku. Trabalhando na Casa de Banhos, Chihiro terá que aprender a se virar com pouca ou nenhuma ajuda enquanto se afeiçoa aos personagens e luta para libertar seus pais. A história é cheia de significados, sendo o principal a transição da infância para a adolescência. Depois de assistir, eu posso garantir: sua opinião sobre o cinema japonês já será totalmente diferente.

Por último, antes de sair para procurar os filmes mais difíceis de serem encontrados, há mais um de fácil acesso que vale a pena assistir. É a produção mais recente de Miyazaki, Ponyo (Ponyo in the Cliff by the Sea em inglês). É um filme definitivamente mais infantil que os outros, mas mesmo assim com temas bem adultos. Ponyo é um peixe, filha de um poderoso mago que vive embaixo do mar remoendo seu ódio pela poluição que os humanos causam e planeja a destruição de toda a humanidade. Ponyo é apenas uma criança que foge de casa e acaba nas mãos de um menino chamado Sosuke, que vive em uma agitada cidade portuária japonesa. Ponyo logo cria afeição por Sosuke e vice-versa. Qual a sua tristeza, então, quando o pai de Ponyo aproveita um momento de distração e pega o peixe de volta, levando-o para o fundo do mar novamente. Porém Ponyo não desiste e, com a ajuda das suas irmãs, cria braços e pernas e foge para encontrar Sosuke de novo. Mas nessa fuga Ponyo provoca uma tempestade fortíssima que tem vários efeitos colaterais...

Depois disso, boa sorte procurando suas outras obras: "Princess Mononoke", que fala da luta dos humanos com o meio-ambiente em um Japão medieval; "A Cidade dos Gatos", um filme não inteiramente criado por Miyazaki, mas ainda assim com sua ponta de criatividade; "Porco Rosso"; "Castle in the Sky"; "My Neighbor Totoro" e muitos outros... Divirta-se conhecendo mais da cultura japonesa e deixe se encantar com a criatividade tocante de Hayao Miyazaki.


 


 


 

"All along we're just another brick in the wall"

Another Brick in the Wall (Part II)

Pink Floyd

The Wall

Columbia Records


 


 


 

quarta-feira, 2 de março de 2011

Bron-Yr-Aur

No ano de 1975, a banda inglesa mundialmente famosa Led Zeppelin (cuja obra-prima "Stairway to Heaven" inspira o nome desse blog) ficou parada. Não fez turnês, não fez álbuns, nada. Segundo os demais membros da banda, eles usariam aquele tempo para tirar uma folga do sucesso da banda. Jonh Paul Jones usaria o tempo livre para trabalhar em uma outra banda, Jonh Bonham viajou pelo mundo com a família e Robert Plant lançou um álbum solo. Muitos se perguntaram se não era o fim da banda disfarçado de "folga".

Porém, eu disse os demais membros da banda. Jimmy Page não parou.

Jimmy Page, o guitarrista e alma do Led Zeppelin não precisava de álbuns solo, pois "os álbuns do Led eram seus álbuns solo", segundo o jornalista e autor do fantástico livro sobre a banda "Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra" Mick Wall.

Assim sendo, ele tirou seu ano de folga para visitar a costa oeste da Inglaterra junto com Robert Plant (em um dos poucos finais de semana em que o ocupadíssimo Plant estava livre das gravações de seu álbum solo).

A viagem acabou se tornando no próximo álbum do Zeppelin, "Physical Graffiti". Uma das faixas foi gravada nesse final de semana, em uma antiga construção celta na qual Page e Plant passaram a noite. Segundo os pescadores da vila mais próxima, o lugar era assombrado pelas almas dos soldados que morreram lutando contra os saxões em defesa de sua pátria. A fortaleza se chamava Bron-Yr-Aur (se pronuncia bronraur).

É interessante imaginar como a inspiração atingiu Page e Plant naquele lugar tão antigo e os permitiu criar uma faixa tão singular como "Bron-Yr-Aur". As paredes em ruínas molhadas pela chuva constante da costa da Inglaterra e apenas uma fogueira para iluminar o lugar criaram um ambiente que coincide com o tom da música. Bron-Yr-Aur é provavlemente o lugar mais inusitado para se compor uma música... Mas, mesmo assim, eles fizeram, e o resultado é interessante.

Nos leva de volta há muitos séculos atrás... Para a Inglaterra da Idade das Trevas, ou melhor, a Britânia, onde seu povo, os bretões, governavam em cima de ruínas da ocupação romana, sempre travando guerras contra os invasores de além-mar e entre si próprios. Não existem documentos muito precisos da Idade das Trevas, principalmente porque as pessoas não conseguiam erguer uma ponte que durasse mais de um ano, ainda mais deixar documentos para as gerações posteriores. Mas, se não podemos nos ater aos fatos, porque não brincar com a fantasia?

A Idade das Trevas (século 5 a.C.) foi a época em que se presume que viveu um dos personagens mais interessantes da mitologia inglesa: O Rei Artur. Pouco se sabe ele, ou se sequer existiu, mas enquanto a viagem no tempo não é possível, podemos viajar para a Britânia de Artur de outra forma: Através da literatura.

Um dos livros que nos permite voltar a essa época mítica é "O Rei do Inverno". Escrito pelo Inglês Bernard Cornwell, é uma obra na qual o autor que se atém a um ou outro frágil fato real e constrói um mundo sólido de ficção com batalhas épicas, paredes de escudos, magia, honra, traição, sangue, lealdade,amizade, amor e, principalmente, com homens capazes de mover montanhas por um único objetivo: As terras verdes e férteis da Britânia.

É uma obra fantástica, e vale a pena se dar ao trabalho de conhecê-la melhor. Bernard Cornwell conta a verdadeira história do Rei Artur, um homem que jamais foi rei, pelo ponto de vista de um dos seus lanceiros: O humilde Derfel. É impressionante como se ganha afeto pelos personagens, e quando você se dá conta, está torcendo por eles, amaldiçoando outros e xingando o autor por ele ter matado alguém que você gostava na história.

"O Rei do Inverno" é o primeiro livro da trilogia "As Crônicas de Artur", que continua com "O Inimigo de Deus" e tem seu desfecho em "Excalibur". Vale à pena conhecer.


 

Bron-Yr-Aur

Led Zeppelin

Physical Graffiti

Swan Song Records


 


 

terça-feira, 1 de março de 2011

Good Times Bad Times

Como começar?

Por que começar um blog?

A maioria das pessoas começa um blog porque tem algo a dizer. Elas têm uma idéia instalada, que acreditam ser importante o suficiente para ser compartilhada. Às vezes, ela é.

Às vezes, ela é curta. Apenas uma frase basta. Às vezes, ela é tão grande que precisa de livros inteiros para ser esclarecida.

Esse blog não vai fazer nem um nem outro. Nele você encontrará (como diz a descrição) "Pequenos textos e epifanias de natureza duvidosa." É certo que nem sempre você vai concordar com elas, mas só pelo fato de você se dar ao trabalho de ler já é bom.

Por as idéias no papel pode ser fácil para alguns, mas para outros nem tanto. Se expressar também. Com a internet, nós descobrimos diariamente que, ao redor do mundo, há pessoas que pensam exatamente como você, que tem os mesmos sonhos, as idéias malucas e mais insignificantes. As pessoas se identificam com o que elas lêem, assistem ou escutam, e é isso que eu espero que esse blog seja. Que você se identifique com ele, e se não se identificar, ria dele. Ria das idéias retardadas postadas aqui. Passe bons e maus momentos com ele. Divirta-se.


 


 

"Good Times, Bad Times, you know I had my share;

(…)

Well, I still don't seem to care."

Good Times Bad Times

Led Zeppelin

Led Zeppelin I

Atlantic Records