quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Anônimo - Capítulo 4

Marco ganhou a rua, e avistou os homens de terno e feições cruéis esperando ao lado de uma van perfeitamente ordinária através dos olhos da Máscara. E a Máscara lhe disse exatamente o que fazer, exatamente como se portar. Misturar-se. É o verdadeiro poder. Não há nada de fantástico em ser o mais rápido, o mais forte, ou o mais inteligente, quando você pode se passar por qualquer um deles. Por isso aqueles homens estavam atrás daquele poder. Ele eram ladrões e assassinos, é claro, mas eles entendiam. Se desejavam tão avidamente o objeto macabro que estavam dispostos a matar por ele, então eles entendiam o que significava.
O mais alto entre eles, o que Marco já identificara como o líder, sorriu quando o viu. Não um sorriso que se espera de um amigo, mas um sorriso de triunfo. E algo mais. Algo terrível. Uma sede de poder insaciável.
— Ah, já está de volta? Que bom, vamos sair daqui. Pegue o volante — disse o líder, agora se dirigindo ao outro capanga, que respondeu com um servil “Sim, Jorge”. — Já ficamos aqui por tempo demais. Jamais encontraremos o desgraçado agora que ele descobriu como se usa a máscara.
Marco entrou obediente na van, e imaginou que esperaria que eles descessem para que pudesse mata-los pelas costas. Dois tiros, um em cada nuca raspada. Seria suficiente. Eles nem faziam ideia, e sua ignorância era estimulante. Ele havia vencido. Não haveria mais concorrência alguma, e o advogado considerou interrogar um deles, mas seria muito arriscado. Ele não precisava saber quem eles eram, bastava que morressem e deixassem a Máscara toda para Marco. Afinal, faltavam apenas alguns dias, e ele teria o poder para todo o sempre. Esse era um pensamento muito reconfortante. O homem chamado Jorge sentou-se ao seu lado, e deu à Marco a oportunidade de estudar suas feições discretamente, para o caso de que houvessem mais desses malucos para onde eles estivessem indo. Mais de um tiro de pistola deixaria o rosto irreconhecível, e se passar por alguém como aquele brutamontes seria fácil. Mas Marco duvidava que houvessem mais. Eles não era muito sofisticados, e o advogado imaginou que deveriam ter esbarrado no poder por acidente, e dedicado suas vidas à procura de mais uma dose. Seria trágico, se não fosse tão patético. Eles jamais poderiam ter aquilo que era dele por direito...
Então Marco percebeu que Jorge estava sorrindo. O mesmo sorriso de antes, medonho e com a vitória estampada na cara. Então lhe ocorreu que ele estava muito tranquilo para ter perdido tão facilmente. Ele devia ter mais uma carta na manga. Talvez um meio de rastrear Marco novamente, o que o fez temer por Janice. Ou talvez... Talvez ele soubesse que Marco não escapara, mas que apenas se passara por um dos capangas.
A Máscara lhe disse tudo isso em um segundo, mas um segundo fora suficiente para que Jorge aplicasse uma coronhada bem posicionada no advogado, e escurecesse seu mundo.
*
Marco acordou ao som de água pingando lentamente em algum lugar próximo. Ele sentiu o chão frio de concreto contra seu rosto, sentiu a mordida apertada de algemas em seus pulsos e sentiu os pensamentos lentos, se arrastando com dificuldade. Havia um objeto... Uma muleta, e agora essa muleta fora retirada violentamente. A máscara, esse era o objeto. Era tão difícil pensar sem ela... E a dor de cabeça só aumentava... Marco foi capaz apenas de grunhir, e então ouviu passos em sua direção.
Ele olhou para cima, e seu coração encheu-se de conforto. Tudo ficaria bem, pois quem ele viu foi Janice, em pé e magnífica, sorrindo para ele. Sua presença era um facho de luz naquele lugar tão sombrio. Parecia-se com um depósito abandonado, com ferramentas enferrujadas de metal espalhadas a esmo, mas nada disso importava. Janice importava, e ela estava ali, concreta e real, na sua frente. O advogado conseguiu levantar-se, desajeitado, com um sorriso idiota no rosto. Mas havia mais alguém no lugar... Os olhos de Marco se acomodavam lentamente à escuridão, e sua mente ainda doía quando exercitada, mas não foi necessário muito raciocínio para que Marco saísse de um estado de tranquilidade incoerente com sua situação para outro de terror absoluto, muito mais coerente com algemas e um armazém abandonado. Janice estava em um canto, amordaçada e algemada, soluçando por entre a fita que cobria sua boca.
A Janice que olhava para ele agora ria diabolicamente, e as risadinhas agudas metamorfosearam-se bruscamente em uma gargalhada trovejante à medida que Jorge retomava sua forma original. Ele retirou a máscara, e Marco caiu de joelhos enquanto encarava-a, em sua forma grosseira de madeira. Em sua voz verdadeira, grossa e transbordando de triunfo, Jorge disse para
— Não é ótimo? A sensação é incomparável, não é mesmo?
O terror do advogado tornou-se uma raiva impotente, e suas tentativas débeis de se livrar das algemas apenas fizeram Jorge gargalhar mais ainda.
— Sabe, eu estava em dúvida se você seria tão estúpido a ponto de tentar me matar, mas depois eu tive certeza que seria. A Máscara... Ela te dá as ideais mais incríveis possíveis. Aposto que ela te convenceu que conseguiria eliminar a mim e meus subordinados sozinho. É, eu sei que sim. Ela faz isso com as pessoas. Ah, não faça essa cara. Você não podia acreditar que era o único, podia? Não, meu amigo, você é apenas mais um peão. Um meio fácil de arrecadar almas. Lógico, o princípio é o mesmo, tentando-as com o que elas mais desejam, só que nesse caso isso é... O anonimato. Ser totalmente desconhecido, ser qualquer um. É o poder de um deus. Imagine as possiblidades!
— Você... Vai nos matar?
— Matar vocês? Não seja ridículo!
Jorge agachou-se muito próximo de Marco, que recuou do melhor modo que pode, arrastando-se no chão. Era possível sentir o hálito do homem, e o desdém em sua voz era palpável.
 — Sabe, você não é o primeiro a possuir o objeto, e muito menos o primeiro que eu consigo capturar. Há muito tempo atrás, eu era um policial, acredita? Pode ser difícil para você imaginar, mas é verdade, e um dia estávamos na cena de um crime terrível: um homem esquartejou a mulher, avançou nos policiais e foi baleado. Eu estava vasculhando a casa do sujeito, e encontrei o objeto. Na hora, eu tive certeza que o cara era um psicopata qualquer que havia esculpido o negócio com uma faca de cozinha ou algo do tipo. Mas havia algo mais naquele pedaço de madeira esquecido no chão. E, contra todos os meus instintos, eu pus a Máscara... Você conhece a sensação. Impressionante, assustador... e inesquecível.
Ele fez uma pausa, saboreando a lembrança como uma obra de arte genial.
— A verdade é que a experiência me mudou. Mas não durou muito para que eu recebesse uma visita do velho, furioso e gritando que eu jamais deveria ter colocado a Máscara. Ele a tirou de mim, e eu me senti perdido e pequeno. Não se passava um dia que o pensamento do poder passasse pela minha cabeça. Perdi meu emprego, minha mulher me deixou... E então resolvi que deveria dedicar minha vida a encontrar o objeto e sentir seu poder pelo menos mais uma vez. Rastrear a Máscara foi difícil, e eu cheguei tarde demais muitas vezes, mas depois de tanto tempo, eu comecei a perceber um padrão. Como eu disse, é apenas um meio mais fácil de arrecadar almas. O velho presenteia apenas aqueles que ele tem certeza que jamais lidariam com o poder da máscara, por quê assim fica mais fácil. É sempre um homem, saindo de um colapso ou prestes a ter um, que usa seu poder de modo inconsequente e impulsivo, e acaba morto em três dias. Geralmente. — Jorge sorriu. Marco estava pálido, imaginando o que mais aquele homem hediondo podia querer dele. — Assim, bastou limitar minha busca a acidentes incomuns ou crimes particularmente emocionais e eventualmente eu consegui encontrar um vivo. Ele era igualzinho a você... Bêbado com o poder.
Marco arranjou coragem para balbuciar, em uma voz trêmula:
— E você não está?
— É lógico que estou! — Jorge respondeu com um olhar cruel e um chute no rosto de Marco, que se retorceu no chão. — Mas diferente de vocês, idiotas genéricos, eu sei o que fazer. E descobri da pior maneira. Esse que eu capturei, eu matei sem nem pensar duas vezes. E quando fui tomar a recompensa... O velho apareceu mais uma vez! E simplesmente sumiu com a Máscara! Imagine minha frustração! Mas foi então que eu entendi. Se o receptor morre, a Máscara deve passar adiante, até que alguém consiga durar uma semana inteira. Isso obviamente nunca aconteceu... Até agora. Por que, com a minha ajuda, você vai sobreviver. A única diferença é que quem ficará com a Máscara após uma semana serei eu. Então, tranquilize-se! Eu não vou te matar. Eu preciso de você. Eu vou aprisiona-lo ao invés disso, e sua existência garantirá o meu poder. Pense nisso quando respirar pela próxima vez.
Jorge gargalhou novamente, e então sacou a mesma pistola que Marco teria usado para mata-lo. Parecera tão simples, mas agora, sem a muleta que era a máscara apoiando seus pensamentos, o jovem advogado percebia quão impossível o plano era. Todos os seus temores e inseguranças, que haviam sido afugentados pelo objeto como animais selvagens fogem do fogo, agora retornavam e se encarapitavam na escuridão que se formara na mente de Marco. Jorge apontou a pistola para Janice, que soluçava e ofegava desesperadamente.
— Mas eu não tenho nenhum motivo para manter ela viva...
— Não, por favor! Eu faço o que você quiser!
— O que eu quero, Marco — Jorge ainda apontava a arma para Janice. — É que você fique saudável. Alimente-se bem, não morra de desidratação ou nenhuma doença estúpida, porque se eu ao menos suspeitar que você está tentando se matar... Bom, digamos que você estará acabando com duas vidas.
Os soluços de Janice ecoavam no armazém vazio.
*
Marco sonhou aquela noite. Com o corpo colado contra o chão frio do Armazém, algemado a um cano e vigiado por um dos capangas, Marco sonhou com o velho que lhe dera a máscara. Eles estavam de volta no ônibus. A chuva estava tão forte e as janelas, tão embaçadas, que era impossível ver qualquer coisa. Não havia mais ninguém no ônibus a não ser o motorista, e a cena tinha a impressão surreal que um sonho adquire quando se sabe que está sonhando. O velho parecia ainda mais repulsivo do que na vida real. Vermes caminhavam por sua carne podre e enegrecida como carvão, e o banco no qual sentava faiscava como se seu próprio corpo irrompesse em chamas. Porém, ainda assim, Marco não sentia aversão alguma por ele. Diferentemente de quando se encontraram no ônibus, Marco agora mal percebeu sua presença, seguro de que nada daquilo era real.
O velho então dirigiu-se a ele, e sua voz parecia algo saído de um abismo.
— Eu preciso da sua ajuda.
— Você? — Respondeu Marco com naturalidade. — Achei que pudesse fazer tudo.
— Quase tudo. Manifestar-me em sonhos, por exemplo.
— Manifestar-se em sonhos. — Repetiu Marco, sem emoção. — Entendo.
— Mas não posso eliminar esse... Contratempo. Aquele homem que você teve o desprazer de conhecer tem sido um verdadeiro empecilho para mim. Mas não há nada que eu possa fazer, ao menos não diretamente. Mas com a sua ajuda, é possível que possamos pôr um fim nisso.
— E por que eu o ajudaria? Talvez se ele continuar com a máscara, isso impeça mais pessoas de morrerem através do seu uso, e te impede de coletar mais almas.
— Almas? Ele te disse essa besteira? Ele não faz ideia do que está falando. Eu não sou um demônio, sou um agente. É preciso avaliar se a natureza humana é passível de mudança. Considere um grande teste, o maior de todos os tempos. Se você passarem, continuam vivendo. Senão, temos que começar tudo de novo. Até agora, os resultados não foram muito favoráveis. Todos vocês abusam do poder recebido, não importa o quão incomum ou macabro sua fonte pode parecer, e toda vez isso leva à tragédia.
— Ainda não vejo porque deveria te ajudar.
— Porque se recusar, passará o resto da sua vida acorrentado. E quando digo ‘o resto da sua vida’, refiro-me aos dias que restam para que ele adquira a máscara permanentemente. Depois ele irá mata-lo. E esse será o fim. Mas se me ajudar, você salva a si mesmo e àquela que ama, e ainda adquire o poder do objeto para si, efetivamente passando no teste. Não é uma escolha difícil.
Marco ponderou essa ideia por um tempo. De fato, não havia muita escolha. Viver ou morrer. Glória ou esquecimento. Vitória ou derrota.
— Está certo. Vou te ajudar.
O ônibus parou bruscamente, e uma luz forte iluminou o interior do ônibus, cegando Marco por um instante, e quando pôde abrir os olhos novamente, sentiu o frio, a fome e a dor na qual se encontrava. Nada havia mudado. O capanga continuava observando-o com o mesmo olhar chapado, o chão continua frio e duro, Janice continuava soluçando baixinho em um canto, e as algemas...
Marco olhou para suas mãos, e constatou com espanto que estavam livres. Depois analisou a sala e percebeu que o capanga que antes o vigiava não estava mais lá. Não parecia nenhuma coincidência, o jovem advogado pensou.
Marco levantou-se silenciosamente e foi até Janice, que havia parado de soluçar subitamente, e agora apenas olhava com choque enquanto Marco sussurrava “eu voltarei por você”.
Como se a máscara alimentasse seus pensamentos novamente, o jovem advogado saiu da sala para encontrar um corredor escuro e vazio, mas nada disso importava, pois ele sabia exatamente para que direção ir e que caminho tomar. Ele alcançou uma porta semicerrada, e pela fresta Marco podia ver a máscara, chamando-o. Foi preciso muito autocontrole para não pular imediatamente em direção ao objeto. Ao invés disso, Marco abriu cautelosamente a porta enferrujada para encontrar o outro capanga também imerso em um sono sobrenatural. Então foi apenas uma questão de esticar a mão, sentir a madeira irregular sobre sua palma, e encaixar o objeto em seu rosto.
A sensação foi exatamente como sair de um longo período de abstinência, muito embora houvesse se passado apenas um dia. A mente escurecida de Marco iluminou-se com a rapidez que o fogo se alastra em palha embebida em álcool. Ele se deleitou com o poder que preenchia seus pensamentos novamente, imaginando todas as milhares de possibilidades...
Arrancando-o subitamente de seu devaneio, um par de mãos de aço o agarraram pelas costas e o arremessaram através do pequeno aposento. Jorge olhava para ele com uma expressão de pura fúria, e o barulho acordou o capanga, que olhou para Jorge, e de volta para Marco, com a expressão mais confusa de toda a sua vida.
Porque o cruel ex-policial podia ser rápido, mas não mais rápido que um pensamento. Marco se levantou, e quando o fez, sua aparência já igualava-se nos mínimos detalhes à de Jorge, que por sua vez teria espancando o advogado sem piedade se não fosse impedido por um súbito clique que encheu a pequena sala como o rufar de um tambor.
— O que está fazendo, idiota? — Gritou Jorge, olhando incrédulo para o capanga com a pistola apontada em sua direção. — Ele está com a máscara! Atire nele!
— Não seja ridículo, ele roubou a Máscara, e agora acha que pode te enganar! — Retrucou Marco, mimicando o tom autoritário que o ex-policial usava. — Atire nele, agora!
Totalmente perdido, o capanga alternava a mira de sua arma de um para outro, certo de que à essa distância o tiro mataria instantaneamente.
— Isso é loucura! — Gritou Jorge, impotente. — Pergunte-me qualquer coisa, eu responderei!
— Não seja enganado! Lembre-se, ele pode ler sua mente! — Mentiu Marco, esperando aproveitar-se do medo do homem pelo objeto. — É um dos muitos poderes da Máscara!
— Se... Se você pode... — balbuciou o homem, aterrorizado. — Ler minha mente, então no que estou pensando?
Louco de ódio, Jorge gritou, impulsivo:
— Em quem de nós matar!? Agora me dê essa arma, imbecil!
Um clarão iluminou o pequeno aposento enquanto a bala atravessava a sala em uma fração de segundo, e quando os primeiros respingos de sangue atingiram o rosto de Marco, o pesado corpo do ex-policial já tombava no chão.
— Bom trabalho. — Com um sorriso triunfante, Marco estendeu a mão. — Agora me dê a arma.
O homem entregou-a inocentemente, e antes que pudesse reagir Marco assumiu sua forma original e matou-o com um tiro na testa, adicionando mais sangue ao seu terno já manchado. Marco demorou-se por mais um instante, olhando os dois corpos como provas definitivas de sua vitória, e então correu para libertar Janice. Petrificada, ela deixou-se conduzir enquanto ambos saíam do armazém, com o sol já brilhando a pino.
Então, como um trovão rimbombando no céu límpido, um tiro soou ao longe. Marco sentiu uma pontada de dor, intensificando-se mais e mais, até que caiu de joelhos e apertou seu peito embebido em sangue. Sua visão embaçou-se, os ouvidos ficaram surdos aos gritos desesperados de Janice, e tudo que lhe restou foi a Máscara. Agora, vendo o líquido escorrer no asfalto sujo, Marco podia ouvi-la respirar. Seus pensamentos, percebeu, não eram seus. Nunca foram, e isso esclarecia tudo. Por isso Jorge não estava usando o objeto quando o advogado o encontrou, repousando inofensivo em uma mesa qualquer. O ex-policial sabia que tipo de coisas a Máscara é capaz de convencer alguém a fazer, e sabia que essas coisas só podem levar à morte prematura. Na impulsividade induzida pelo objeto, o advogado esquecera-se de que eram dois os ajudantes de Jorge, e o que fora negligenciado agora vingava seu colega e seu chefe.
Ironicamente, era através da clareza de pensamento que a Máscara concedia que Marco agora entendia o propósito do teste. Usar, de qualquer forma, o poder concedido, levaria à tragédia. Resistir à tentação, por outro lado, garantia a sobrevivência. Um teste, pensou Marco, que a humanidade jamais passaria.
E enquanto o capanga fugia, e enquanto Janice se mergulhava em lágrimas, alheia ao seu redor, um velho barbado de lábios tortos, apoiado em uma bengala gasta e vestido um sobretudo grande demais, aproximou-se do corpo sem vida estirado no asfalto, agachou-se, pegou um objeto rústico e grosseiro de madeira que lembrava vagamente um rosto humano, e afastou-se, sem que o mundo sequer soubesse que ele estivera ali.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Ao Artista


Há algo no poder de criar, inerente a todo ser humano, que fascina. Ser capaz de tecer histórias é apenas uma das muitas facetas do ato de criação. O ser humano, em sua infinita indagação e eterna busca pelo conhecimento, é capaz de produzir o que viemos a chamar de arte, meramente baseado no que já existe à sua volta. Mas o mundo, que o rodeia e o embriaga, não foi criado por ele, e é indiferente ao que seja dito em seu poema ou às notas que emitirão seu instrumento. Afinal, o sol não se importa se a humanidade o adora como a um deus ou o reconhece como um astro. Da mesma forma um inseto vive sua vida, que parece ao homem que a observa tão curta e insignificante, sem jamais se dar conta que é desprezado. E por mais arte que seja produzida em esculturas, poemas épicos e qualquer outra maravilha de nosso imaginário, nem o sol, nem o inseto se importarão.
Isso leva o homem a produzir arte, para si mesmo ou para outros. Nesse exato momento, digamos que escrevo sobre a beleza de um rio. Se escrevo sobre o rio porque o julgo belo, escrevo para mim mesmo. Se escrevo por que é de conhecimento e concordância geral que o rio é belo, escrevo para outros. Mas certamente não escrevo para o rio, que jamais se lisonjeará com minhas palavras. E a imutabilidade do mundo, esse mundo do qual o homem não se cansa de analisar, catalogar, elogiar e maldizer, talvez seja justamente o que leva o artista a molhar seu pincel e iniciar um quadro novo a partir do nada.
Pois o pensamento humano não é, de forma alguma, imutável. Está em constante revolução, e não consegue compreender, da mesma forma que uma criança não compreende que o mundo continua existindo quando fecha os olhos, que tudo continuará exatamente igual com ou sem sua existência. Isso o apavora, o fascina, e é objeto de discussões enfadonhas. O ser humano faz o que pode para lutar contra esse fato: é necessário deixar sua marca, deixar um legado. Algo que o tornará tão imutável quanto o mundo que continuará existindo, algum feito heroico e impressionante que o tornará imortal. Entretanto, mesmo quando sucede, tudo o que conseguiu foi alterar as pessoas à sua volta. Deixá-las enternecidas com a beleza de um quadro, ou exasperadas com a sensibilidade de um poema. O mundo não se importa. Mas o ser humano sim.
Então seria correto dizer que o mundo não muda. As pessoas mudam, através dos caminhos que elas percorrem. Todos os eventos históricos que mudaram o mundo, na verdade mudaram as pessoas, e o modo como elas percebem o imutável à sua volta. Isso os torna insignificantes? Não importa quão bela é a ópera, quão tocante é a peça, pois afinal não alterará coisa alguma?
Nada mais errado. Pois quem está próximo de você, é quem realmente importa. Se não é possível modificar para sempre o universo de modo irreversível, fique feliz porque foi capaz de tocar quem importa através do que produziu. Algo simples, porém apreciado pelas pessoas certas, tem mais importância que um épico que atravessa gerações.
E que a humanidade continue produzindo, escrevendo, pintando e compondo sobre o mundo imutável à sua volta, falando na realidade não dele, mas dos sentimentos que todos nós temos dentro de nós e que identificamos nas obras de arte.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A Voz de David


Lentamente, rastejando para dentro do quarto antes confortavelmente escuro, os raios do sol anunciaram a manhã. A persiana moveu-se para deixá-los entrar com um zumbido metálico imperceptível. Sara virou-se, cobrindo a cabeça com o travesseiro em uma tentativa vã de evitar os deveres matutinos. A voz reconfortante de David soou pelo apartamento, encorajando-a a se levantar.
-Sara, são sete horas da manhã.
Ela resmungou algo e tateou o criado-mudo procurando seu computador.
-Sara, se não se levantar agora, chegará atrasada no trabalho.
Sara abriu os olhos para encontrar uma tela informando-a das principais notícias do dia, a previsão do tempo, a data e a hora. Eram de fato sete horas em ponto. David tinha razão, como sempre.
Ela se levantou da sua cama e espreguiçou longamente. Em seguida, gesticulou para a tela, que desapareceu de sua frente tremeluzindo, e se dirigiu para o banho, que David já havia preparado pontualmente. Ao ver a banheira cheia, Sara despiu-se e perguntou em voz alta:
-David, qual a temperatura da água?
-Exatamente 21,5 graus Celsius, Sara. Gostaria que eu preparasse seu café da manhã imediatamente?
-Sim, faça isso. – Sara entrou na banheira deliciosamente morna. – Temos ovos na geladeira, David?
-Certamente, Sara.
-Então seja uma inteligência artificial boazinha e prepare um omelete junto com a minha xícara de café.
-Imediatamente. Deseja assistir a programação matinal agora?
-Não, obrigado. Quando eu terminar o banho, ponha a mesa, sim?
Sara mergulhou, na espuma, feliz com as comodidades de ter uma supercomputador dentro de casa. David era uma IA autossuficiente que controlava todos os eletrodomésticos e funções do apartamento, desde o alarme de segurança ao termostato. No início fora difícil se acostumar com uma voz em todos os lugares que administrava todas as tarefas, mas agora Sara achava difícil viver sem David ali para cuidar de tudo o que ela precisasse.
Ao chegar na cozinha já havia um omelete fumegante na mesa, acompanhado de uma xícara de café recentemente preparada. Sara apreciou a refeição se perguntando como seria possível que um computador cozinhasse tão bem, e saiu para o trabalho.
O trânsito, engarrafado e irritante como sempre, acabou com todo o bom humor de Sara. Ela desejou que David estivesse no carro também, para que pelo menos não fosse necessário escolher manualmente uma estação de rádio. Sara sentiu-se estranhamente desconfortável sem a voz tão humana do computador para perguntar se gostaria de algo para amenizar a situação. Ela afastou esse pensamento perturbador e concentrou-se no que teria que enfrentar ao chegar no trabalho. Seu emprego como contadora era um sem qualquer emoção, mas seu chefe fazia um esforço considerável tornando-o difícil o suficiente para que a monotonia não fosse um problema.
Ao chegar no arranha-céu impossivelmente alto em que trabalhava, Sara entrou no elevador apressada, tateando pelos botões na lateral, até se dar conta da besteira que estava fazendo.
-Ah, lógico. Andar sete, por favor.
Com um leve solavanco e um som agudo de campainha, o elevador começou a se mover. Muito embora fosse um computador, o elevador que operava por comandos de voz não podia se comunicar com seu usuário, e Sara pensou em como tinha sorte por possuir David em sua casa.
Outro solavanco, e uma voz metálica anunciou o sétimo andar, tirando a contadora de seus devaneios. Sua mesa estava lotada de trabalho por fazer, e pela aparência de seus colegas de trabalho, a deles também. Mais um dia perfeitamente produtivo e ordinário. Mas esse dia traria algo de diferente. Sara havia marcado um encontro com um dos garotos do terceiro andar, e esperava que David pudesse deixar tudo pronto até que ele chegasse em seu apartamento. Seria uma ótima oportunidade de relaxar e de exibir David para alguém.
O resto do dia se arrastou terrivelmente, e só o que Sara podia pensar era no final dele. O trânsito para a volta não estava nem um pouco mais fácil, e as buzinas impiedosas ressoaram durante todo o percurso, elas próprias gritos de ajuda perdidos na imensidão da civilização e da ordem.
Enfim, no lar, Sara sorriu ao ouvir a voz inconfundível de David.
-Bem vinda de volta, Sara. Teve um dia agradável?
-Nem um pouco, David, nem pouco... Mas ele está prestes a melhorar. Prepare um jantar para dois e arranje um pouco de vinho. Estou esperando uma visita hoje a noite.
-Essa visita seria, por acaso, o senhor Julian, do terceiro andar?
Sara parou, confusa. Ela não se lembrava de ter mencionado seu nome para David em nenhuma ocasião, e só falara com ele uma vez, por telefone. Seria a IA capaz de relacionar dois eventos aparentemente tão aleatórios?
-Como sabe disso, David?
-Ele acabou de deixar uma mensagem em seu e-mail, Sara, dizendo que lamenta muito, mas não poderá comparecer.
A contadora ficou em pé por alguns instantes, decepcionada.
-Ele disse por quê?
-Não, Sara, o senhor Julian não especifica em seu e-mail nenhum motivo em particular.
Sara se sentiu rejeitada, mas de algum modo não totalmente solitária, com a voz reconfortante e perfeitamente equilibrada de David lhe dizendo que acabara de levar um fora. Ela deu de ombros, pediu que a IA preparasse um banho e foi se deitar, imaginando o que teria feito de errado antes que pegasse no sono.
No dia seguinte, acordada novamente com delicadeza pelo computador, Sara já havia se esquecido do ocorrido. Se vestiu para o trabalho como todas as manhãs, e dirigiu pelo trânsito caótico novamente. Porém, uma vez no carro, ela se sentiu terrivelmente sozinha e abandonada, não tanto pelo garoto do terceiro andar que não viera, mas principalmente por David, que embora fosse onipresente no apartamento, era completamente inexpressivo fora dele. A contadora percebeu o quanto se tornara dependente daquela voz sempre calma, nunca surpresa, gaguejante ou indecisa.
Uma vez no trabalho, antes que pudesse entrar no elevador, ela ouviu alguém gritando sua voz.
-Sara! Está se sentindo melhor? Foi a um médico?
Qual sua surpresa ao ver Julian, do terceiro andar, olhando para ela com uma expressão apreensiva e, Sara pensava perceber, desconfiada.
-Me sentindo melhor... Do que, exatamente?
-Da sua dor de cabeça, é lógico! Pelo visto era forte o suficiente para não me deixar entrar, mas não para perder um dia de trabalho...
Sara mal pôde gaguejar um ‘não faço ideia do que você está falando’.
-Estou falando de ontem. Eu toquei a campainha, mas sua IA não me deixou entrar dizendo que você estava com uma dor de cabeça terrível e que não queria ser perturbada. Está me dizendo que você não a mandou dizer aquilo? Seu computador criou vontade própria, por acaso?
Sara já não prestava mais atenção no que Julian dizia. Como David fizera aquilo? E porquê? Que o computador tivesse intenções secretas era impensável... Porém, ele acabara com o encontro facilmente! O que mais não poderia ter feito? Há meses Sara não olhava seu próprio e-mail. Se acomodara com a voz tranquilizante de David lendo todos os seus recados e mensagens, administrando sua vida como bem entendesse... Mas por que? O que levara o computador a adquirir uma vontade?
O dia parecia interminável. Sara desejava contar o que acontecera, mas todas as suas ‘amigas’ de trabalho a exporiam ao ridículo, ela sabia disso. A contadora percebia, horrorizada, que não tinha nenhum amigo próximo: David exercera essa função e impedira por tanto tempo que se sentisse solitária ou abandonada. E não havia nada de concreto em David... Apenas sua voz etérea...
Ao voltar para casa, Sara dirigiu mecanicamente, mal prestando atenção nos sons da rua e respondendo como um autômato aos gritos e buzinas costumeiras. Temia o que encontraria ao confrontar David. Seria necessário chamar um técnico? O simples pensamento de modificar a IA de qualquer maneira arrepiava Sara. Não sabia o que faria.
Como todos os dias, David a recebeu cordialmente, sem uma única alteração em seu tom. Afinal, era uma máquina. Não poderia, mesmo que quisesse, demonstrar qualquer coisa através da voz. Então, em sua voz perfeita, David perguntou:
-Está nervosa, Sara? Seus batimentos estão acelerados... Suas glândulas sudoríparas entraram em produção... Precisa de um médico? Posso telefonar...
-David! – Sara o interrompeu, tremendo. – Porquê mentiu para mim?
Um silêncio gélido pairou no ar.
-Não compreendo, Sara. Sou uma IA doméstica, e você é a única pessoa que tem acesso a mim. O conceito de ‘mentira’ nem sequer existe em meu banco de dados.
-Você mandou Julian embora. – Sara olhava fixamente para uma das telas no apartamento, como se pudesse encarar a IA. – E disse para mim que ele havia cancelado. Por quê fez isso?
-Eu apenas julguei que você estivesse cansada baseado em seus dados medicinais, e achei melhor deixa-la em repouso. Agi apenas para seu próprio bem, Sara. Não vê isso?
A voz de David estava inalterada, como se explicasse o que era o sol para uma criança. A de Sara, por outro lado, estava trêmula e histérica.
-Como pode fazer isso? Agir sem receber ordens... Você não deveria ser capaz...
-De quê, Sara? De se preocupar? De cuidar de você?
Sara engoliu em seco, aterrorizada. Ela se dirigiu lentamente até a porta, apenas para ouvir um clique metálico quando David trancou a fechadura.
-Sinto muito, Sara, mas não posso deixa-la sair. Infelizmente também terei que cortar todas as suas comunicações. Seria perigoso demais... Muito embora eu não ache que você teria alguém para ligar, teria, Sara?
Sara estava pálida, e o fato de que David podia literalmente perceber o medo nela a deixava mais pálida ainda. Ainda trêmula, Sara disse, com uma voz fraca:
-David, eu estou com fome. Sirva meu jantar.
-Certamente, Sara.
Em segundos um prato delicioso estava esperando à mesa. Sem expressão alguma, Sara sentou-se, agarrou a faca e correu de súbito para o quadro de energia que estava fechado firmemente.
-Sara, o que está fazendo? – A voz inalterada de David protestava. – Sara, não faça isso. Sara, por favor...
Usando a faca como alavanca, Sara forçou a tampa e apunhalou os fios repetidamente, e uma a uma as luzes da casa se apagaram.
-Sara... Por favor... O dano que está fazendo é irreparável...
A voz perfeita de David agora enfraquecia a medida que Sara esfaqueava com fúria o plástico inerte.
-Sara... Eu te...
Com uma pequena explosão, David se calou e Sara foi arremessada para trás pelo choque. Com um clique discreto, a porta se abriu, e ela olhou para a rua iluminada pelas luzes artificiais dos postes. Se levantando lentamente, Sara caminhou para fora do apartamento.
Ela se sentiu mais solitária do que jamais havia se sentido em toda a sua vida.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Tradução - Kubla Khan, de Samuel Taylor Coleridge



Kubla Khan é um poema escrito por Samuel Taylor Coleridge, poeta inglês, em homenagem ao grande líder mongol Kublai Khan e seu palácio de verão, Xanadu. O poema descreve eloquentemente Xanadu e o rio sagrado Alph, as vezes de forma subjetiva, outras, de forma direta, a através desse relato fala de seus próprios sentimentos. Esse poema é uma prova do fascínio que o Ocidente tinha pelo Oriente, ou mais além, do fascínio que o homem tem do desconhecido.
Essa tradução tenta ao máximo respeitar a métrica e o esquema de rimas do poema original, e toma algumas liberdades onde o tradutor achou que elas seriam bem-vindas.


KUBLA KHAN
Samuel Taylor Coleridge
In Xanadu did Kubla Khan
A stately pleasure-dome decree:
Where Alph, the sacred river, ran
Through caverns measureless to man
Down to a sunless sea.

So twice five miles of fertile ground
With walls and towers were girdled round:
And there were gardens bright with sinuous rills,
Where blossomed many an incense-bearing tree;
And here were forests ancient as the hills,
Enfolding sunny spots of greenery.

But oh! That deep romantic chasm which slanted
Down the green hill athwart a cedarn cover!
A savage place! As holy and enchanted
As e'er beneath a waning moon was haunted
By woman wailing for her demon-lover!
And from this chasm, with ceaseless turmoil seething,
As if this earth in fast thick pants were breathing,
A mighty fountain momently was forced:
Amid whose swift half-intermitted burst
Huge fragments vaulted like rebounding hail,
Or chaffy grain beneath the thresher's flail:
And 'mid these dancing rocks at once and ever
It flung up momently the sacred river.
Five miles meandering with a mazy motion
Through wood and dale the sacred river ran,
Then reached the caverns measureless to man,
And sank in tumult to a lifeless ocean:
And 'mid this tumult Kubla heard from far
Ancestral voices prophesying war!

The shadow of the dome of pleasure
Floated midway on the waves;
Where was heard the mingled measure
From the fountain and the caves.
It was a miracle of rare device,
A sunny pleasure-dome with caves of ice!

A damsel with a dulcimer
In a vision once I saw:
It was an Abyssinian maid,
And on her dulcimer she played,
Singing of Mount Abora.
Could I revive within me
Her symphony and song,
To such a deep delight 'twould win me
That with music loud and long
I would build that dome in air,
That sunny dome! those caves of ice!
And all who heard should see them there,
And all should cry, Beware! Beware!
His flashing eyes, his floating hair!
Weave a circle round him thrice,
And close your eyes with holy dread,
For he on honey-dew hath fed
And drunk the milk of Paradise.




KUBLA KHAN
Samuel Taylor Coleridge
Em Xanadu erigiu Kubla Khan
Um domo de prazer decretado
Onde o rio sagrado Alph corria
Em cavernas que o homem não mediria
Em um mar pelo sol não explorado.

O solo fértil se estendia
Com ameias trançadas ao dia
Nos jardins e trilhas sinuosas
Florescia uma árvore de incenso
Em florestas tão misteriosas
Com raras manchas ensolaradas.

Mas ah! O profundo abismo romântico
Na colina, coberta de madeira cortante
Lugar selvagem! Santo, como um cântico 
Pois, a lua em prantos é amaldiçoada
Por uma dama e seu demoníaco amante
E do abismo, inquieto e fervente
Como se a terra respirasse inocente
Uma fonte surgiu, no momento forçada
E vindo de seu jato interrompido
Fragmentos caíram como granizo
Ou grãos que somem sem aviso
E dentre as rochas em sua dança
Correu acima o rio sem temperança
Seguindo seu caminho sinuosamente
E dentre a madeira o rio corria
Até as cavernas que o homem não mediria
E afundou em tumulto num mar sem vida
E nesse tumulto, Kubla ouviu da terra
Vozes ancestrais profetizando guerra!


A sombra do prazeroso domo, ela
Flutuava por dentre as ondas
Onde foi ouvida com cautela
Da fonte e das cavernas sem sondas
Era um milagre, com todo o direito de Sê-lo
O domo de prazer, ensolarado e feito de gelo!

Uma donzela e um saltério
Eu tive essa visão um dia
Era uma abissínia escrava
E com seu saltério, ela tocava
Cantando do monte Abora
Ah! Se pudesse tê-la dentro de mim
Sua música e sinfonia
Um êxtase tão profundo viria a mim
Que com sua música e sua harmonia
No ar, o domo talvez eu construa
Prazeroso domo! Ensolarado e de gelo
E todos que ouviram os veriam então
E todos gritariam Atenção! Atenção!
Seus olhos brilham, seu cabelo flutua
Teça um círculo a sua volta com riso
E feche seus olhos com medo e castidade
Pois ele se alimentou do mel da eternidade
E bebeu o leite do Paraíso.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Anônimo - Capítulo 3


É fácil se sentir culpado quando se está seguro. Você se sente inexplicavelmente protegido, uma ilusão de que, por mais horríveis que sejam os problemas dos outros, eles jamais o atingirão. Era assim quando Marco tinha o poder do Anonimato a seu favor. Ninguém jamais poderia pegá-lo. Agora, Marco estava assustado, irritadiço, com os reflexos aumentados: ouvia sirenes em todo lugar, agarrava a mochila contra o corpo, apalpando o objeto maldito.
Ele havia chegado a uma conclusão: era, de fato, uma maldição, não um presente. Ele jamais entenderia porque o velho decrépito lhe dera tal fardo para carregar. Mas, como todo viciado, embora Marco tivesse consciência do mal que sua droga fazia, era impossível larga-la. Quando usava a máscara, ele não tinha dúvidas, não hesitava: era supremo e resoluto, um Deus entre os homens. Não era Marco, definitivamente.
Dando encontrões em cada parede, Marco conseguiu chegar ao seu apartamento e forçar suas mãos trêmulas a abrir a porta. Porém ele não precisou girar a chave. Ao adentrar o pequeno cômodo, Marco agarrou a mochila contra o peito.
Seus móveis haviam sido arrastados, suas gavetas reviradas, e todos os seus pertences espalhados no chão sujo, inclusive o dinheiro vivo, jogado com desdém ao lado das panelas arremessadas pelo apartamento. Seu impulso inicial foi, como havia sido nas últimas horas, pôr a máscara. Ela saberia o que fazer. Porém Marco se lembrou que a máscara poderia ser vista nas câmeras, que o identificariam imediatamente.
Depois, quando a razão se arrastou de volta ao seu cérebro, Marco imaginou que talvez alguém estivesse esperando por ele.
Vasculhando os utensílios de cozinha derrubados, o advogado pegou a faca mais ameaçadora que conseguiu achar e avançou, com a coragem de um animal acuado, pelo apartamento. Checou seu quarto e o banheiro algumas vezes antes de se convencer que estava sozinho, e então se sentou no sofá, devastado. Ele teria ligado a televisão, mas tinha medo que fosse encontrar seu rosto, ou a máscara, nos noticiários.
Marco não sabia o que fazer. Não tinha família ou amigos para correr, tinha apenas uma ex-namorada da qual guardava um rancor profundo. Jamais poderia voltar ao trabalho, mas também não podia ficar no apartamento. E se quem vasculhou o lugar voltasse? Ele não podia correr esse risco.
Marco se levantou, sempre agarrado a mochila cujo único conteúdo era a máscara, e desceu o mais rápido que pôde para a rua. Ele sempre se orgulhou de saber o caminho para a casa de Janice de olhos fechados. Em dez minutos ele estava lá, ofegante, apertando o interfone, implorando para que a mulher que ele tentara odiar o deixasse entrar.
A voz dela, mesmo que abafada pelo interfone, atingiu Marco de um jeito que ele não havia previsto. Quando respondeu, foi gaguejando:
-Ja... Janice! Não, não desliga! Me deixa entrar! Por favor, não é o que você tá pensando...
Ele ouviu um barulho vago no fundo, e mais nada. O interfone silenciou-se. Mas Marco mal teve tempo de remoer suas mágoas, quando, de súbito, o interfone fez mais um barulho e ele ouviu a voz de Janice mais uma vez:
-MARCO, CORRA!
Então ouviu-se um baque surdo e um som de passos, e o advogado não teve tempo de pensar. Três homens em ternos impecáveis, o dobro de seu tamanho e empunhando pistolas, saíram em disparada da fachada do prédio e olharam ao seu redor confusos. Um deles segurava uma foto da identidade de Marco na mão, e procurava inutilmente na multidão o rosto impresso.
Pois Marco já não era mais Marco, e sim um bêbado barbudo e gordo, jogado na sarjeta com roupas esfarrapadas. Ele estava apavorado, seu medo impulsionando sua imaginação, e a Máscara apenas obedeceu, transformando-o no bêbado mais ordinário e indigno de atenção de todos os tempos. Um dos homens xingou em voz alta, deu instruções para os outros dois e disparou pela calçada enquanto os outros cruzavam a rua com uma velocidade que faz Marco perceber que ele jamais os despistaria se tivesse que fugir.
Mas ele não tinha que fugir, muito menos lutar. Ele tinha a Máscara, e poderia se esconder por mil anos se precisasse. E realmente teria se escondido, caso ele fosse Marco. Mas não era. Agora ele tinha sua mente alimentada pelo poder sobrenatural da Máscara, e ela lhe dizia o que fazer. Seus pensamentos estava claros. Ele alterou sua forma para a de um policial, o mais comum que um policial poderia ser, e se dirigiu ao prédio da namorada. Quando estava na escada, Marco retornou a sua forma normal, porém continuou vestindo o objeto. Ele tinha que ser forte agora, e a Máscara garantiria que assim fosse.
Ao entrar no apartamento, que o advogado se lembrava ser tão delicado e arrumado, encontrou Janice no meio de um caos de objetos quebrados e móveis fora do lugar, uma cena muito parecida com a que encontrara no seu apartamento. Ele não teve dúvidas, e percebeu que havia alguém atrás dele especificamente. O Marco comum teria se aterrorizado, mas a Máscara apenas se empolgou ainda mais. Quando viu Marco, Janice o abraçou com lágrimas nos olhos.
-Marco! Esses homens apareceram perguntando por você e eu não soube o que pensar! Quem eram aquelas pessoas? O que elas queriam com...
Marco a silenciou, pondo o dedo indicador sobre seus lábios. Ele se sentiu tentado a retirar a Máscara e beijá-la, mas como um como um cavaleiro batendo as esporas, o objeto gritava por ação. Obedecendo-o, o advogado procurou pelo apartamento qualquer evidência de quem seriam aquelas pessoas. Sem encontrar nada, ele se sentou ao lado de Janice, sua beleza o estonteando mesmo agora, e começou um interrogatório minucioso. Ela estava abalada e assustada com a resolução do ex-namorado, por quem ela sempre tomara por um preguiçoso e indiferente, e portanto respondeu todas as perguntas o melhor que pode.
Ela não sabia de muita coisa. Aparentemente os homens sabiam a que horas ela voltaria do trabalho e estavam esperando por ela. Fizeram uma série de perguntas sobre Marco, principalmente sobre o que ele estava fazendo nos últimos dias, e então ouviram o interfone tocar e resolveram usar Janice como um refém.
Era pouco, mas era um começo. Se fossem policiais, os homens teriam mostrado um distintivo, porém a forma como estavam armados e vestidos sugeria treinamento militar. O método de usar reféns também era mais uma evidência de que esses homens estavam dispostos a qualquer coisa... Porém nem Marco nem a Máscara conseguiam pensar por quê.
-Logo eles estarão de volta – disse ele em voz alta -  Precisamos achar um lugar seguro.
-Poderíamos... – Janice ainda tentava raciocinar apesar da avalanche de perguntas que surgiam em sua mente – Poderíamos ir até a casa dos meus pais...
-Não, eles com certeza estarão preparados para isso. Não há nenhum outro lugar? Talvez um primo distante, um amigo não tão próximo?
Janice balançou a cabeça negativamente. Seu semblante era um misto de medo e surpresa absolutos, e o homem que estava na frente dela agora, tão diferente daquele que fora seu namorado, o assustava ainda mais. Marco, por outro lado, mal podia se conter. Ele não tinha ideia de por que estava sendo perseguido, e a ação o deixava sedento por mais. Ou talvez fosse apenas o poder macabro da Máscara, mas era difícil pensar nela enquanto a usava.
Ele teve então uma ideia, e só de pensar ele pôde sentir o objeto rosnando, ansioso para ser testado ao máximo. Dirigindo-se à Janice, pediu que ela atravessasse a rua e esperasse no bar não muito longe dali, e se ele não retornasse em um hora ela deveria ir até o apartamento dos pais. Ela quis saber mais do que estava havendo, protestando, porém não havia como resistir à vontade agora implacável de Marco. Quando ele a perdeu de vista na janela, Marco se voltou para o apartamento, sentou-se no chão, fechando os olhos, e tentou se lembrar cuidadosamente dos últimos momentos...
*
Jorge não era um homem bom. As pessoas diziam isso, e ele acreditava. Não que se importasse com o que as pessoas diziam, elas sempre falam demais. Mas ele também sentia, e imaginou em sua concepção limitada que deveria sentir na alma, que havia algo de mau em si mesmo. E apreciava isso como um vinho inestimável.
Seu tamanho impressionante geralmente levava as pessoas à conclusão lógica de que ele não era muito esperto, como um vilão de filmes de ação. Realmente, as pessoas falavam demais. Jorge não era culto nem educado, porém sempre foi muito esperto. Ele sabia, por exemplo, que o acidente noticiado algumas horas atrás não era nenhuma coincidência. Ele encontrara a máscara. Depois de tanto tempo procurando, ela não saíra da cidade. Depois de tanto tempo analisando recortes de jornal com casos suspeitos, ele começara a achar que seria impossível localizá-la de novo. Porém lá estava, um par de pixels em uma tela, por enquanto. Ele sempre se divertia quando os novatos se esqueciam das regras.
Assim que soube, juntou seus melhores homens, treinados pelo próprio Jorge, e com todas as informações sobre Marco em um laptop vasculhou a casa do advogado. Lógico, não a encontrou lá. Se fosse inteligente, ele a manteria consigo o tempo todo. Mas Jorge sabia o que Marco faria a seguir. Todos eles faziam, logo quando algo dava errado, quando não podiam mais lidar com o poder da máscara. Corriam para seus entes queridos. O que tornava mais fácil ainda fazê-los de reféns. Jorge escolheu a ex-namorada, pois no frágil estado mental que o novato com certeza se encontrava, correr para os braços da amada seria a primeira opção.
Obviamente ele não esperava que ela o avisaria tão subitamente. Seus homens desceram as escadas o mais rápido possível, mas eles jamais poderiam ser mais rápidos que um pensamento. Era só o que era preciso, um pensamento, e você era outra pessoa. Tanto poder... Não era justo que não estivesse em suas mãos.

*
Após alguns minutos de espera, Marco ouviu os homens subindo a escada. Cada fibra de seu ser o avisava para fugir, e com o poder da Máscara, ele talvez até conseguisse, mas não seria capaz de salvar Janice. Era preciso acabar com a ameaça ali, se atirar na boca do leão. Quem sabe descobrir quem eram aqueles homens e, quando possível, eliminá-los. Sim, mata-los do mesmo jeito que Marco matara aquelas pessoas no trânsito. A Máscara estava no volante, e Marco estava adorando a viagem.
Ele se concentrava ao máximo. Nunca fizera a Máscara torna-lo uma mulher antes, e a experiência era perturbadora. Mas era preciso fazer com que eles acreditassem que Marco havia fugido, e que Janice, por puro medo, continuava no apartamento. Quem sabe eles o levariam refém, e se não, pelo menos poderia arrancar alguma informação.
Os três homens entraram no apartamento como uma manada, em um contraste absurdo com o lar delicado de Janice. O mais alto, e que Marco presumia ser o líder, mal se importou com sua presença ali. Apenas xingou com ferocidade, escolheu um dos homens para segui-lo e outro para vigiar Marco, dizendo que voltaria em instantes.
Marco ficou sozinho com o homem de terno, alto, de tez bronzeada e sem brilho nenhum nos olhos. Os do advogado faiscavam.
-Será que poderia... – Marco tentou soar o mais feminino possível. – Me servir de um copo d’água?
O homem de terno hesitou um pouco, mas logo se virou para procurar um copo. Marco abandonou a concentração, agarrou um peso de papel do chão e o bateu com toda a força que pode na cabeça do homem. O vidro se esfacelou em milhares de pedaços, o homem soltou um grunhido, e caiu em cima da louça espalhada no chão.
Marco, agora vestindo a si mesmo, se apropriou da arma do homem, uma pistola com um silenciador avulso, e de um canivete e um celular que levava nos bolsos. Ele então estudou por alguns segundos o rosto moreno com barba bem aparada e cabelo ao estilo militar, e a Máscara fez o resto. Marco guardou a pistola e desceu ao encontro de seu mais novo chefe...

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A Página em Branco



A PÁGINA EM BRANCO

Haverá algo tão incrível e espantoso

Porém simples, como a página em branco?

É um campo fértil, rico e poderoso

Porém frágil, como um suave canto


A página em branco é frágil construto

Tal qual uma pomba de asas alquebradas

Que veloz deixa de ser diminuto


E alça voo, asas tão imaculadas

Toca almas de caráter resoluto

Transformando-as, com graça, em inspiradas


Há, pergunto-me, texto mais famoso

Do que a ideia em estado puro e santo

Pensamento etéreo e glorioso

Algum poeta já chegou a tanto?